O que espanta miséria é festa
O historiador Luiz Antonio Simas fala sobre a importância do Dia de Cosme e Damião e dos ritos coletivos pro encantamento da nossa existência.
Adriana Setti
Luiz Antonio Simas é um especialista em decifrar como as festas populares do Brasil construíram, muitas vezes às margens das instituições do poder, práticas coletivas de vida em um estado-nação excludente.
Prestes a lançar o livro infantil As três estrelas do céu (Ed. Reco-reco), lindamente ilustrado por Camilo Martins, o escritor explica como a tradição do Dia de Cosme e Damião encanta o imaginário brasileiro.

Simas explica que as referências históricas sobre Cosme e Damião são nebulosas — na encruzilhada entre mito, história e ritos da fé, pouco se sabe a respeito deles. Celebrados em 26 e 27 de setembro, os irmãos gêmeos médicos ficaram conhecidos por curar crianças e distribuir doces no século 3. No Brasil, os santos se amalgamaram a orixás e erês, entidades protetoras das crianças, criando uma tradição que mistura crenças africanas, indígenas e cristãs.

Quatro gerações de guloseimas e festas
Carioca criado em uma família nordestina, Simas cresceu em Nova Iguaçu, onde vivenciava a tradição de distribuir doces no Dia de Cosme e Damião com sua avó, que era mãe de santo em um terreiro. Hoje, mantém o costume com sua companheira, Candida, e seu filho, Benjamin, reforçando que alegria, festa e afeto também são heranças.
Dar e receber doces no dia de Cosme e Damião é mais do que tradição: é um gesto de fé, alegria e resistência.
“Como sou um sujeito que gosta de ritualizar a vida, constato preocupado que estamos vivendo um momento de esvaziamento dos ritos coletivos. Como reconstruí-los? O ato de dar doces está inserido nessa dimensão de luta pela cura do mundo através do encanto e do fortalecimento de ritos comunitários.”

Seu livro é também um convite: recuperar a dimensão mágica das festas e reconstruir a alegria compartilhada em tempos de desencanto.

Simas enxerga o livro como um objeto com sentidos múltiplos para as crianças: tem cheiro, estimula o tato, seduz pelas imagens. E a estrutura do cordel joga com a musicalidade, explorando a sedução das rimas e das ilustrações coloridas. Além disso, conecta o hoje com uma tradição ancorada nos antigos folhetos, pra mostrar que se não soubermos de onde viemos, dificilmente saberemos onde estamos e pra onde queremos ir.