A grandeza das festas de São João do Nordeste
O pesquisador Octávio Santiago explica como a celebração que é símbolo da “nordestinidade” revela a complexidade de uma região plural.
Adriana Setti
O Nordeste está exausto de ter sua diversidade reduzida a estereótipos. E o São João — celebrado em toda a região — também não cabe em uma só definição.
Junto com o jornalista Octávio Santiago, autor do livro Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste, a gente explica por quê.

Cansados de rótulos
Reduzir o São João à “herança europeia” apaga sua história. A celebração da chegada do inverno já existia entre os povos indígenas. Algumas comidas “típicas”, a exemplo do milho e outros ingredientes, são parte desse legado. E, na dança, a influência africana está presente, mesmo quando tentam silenciá-la.
A combinação entre clima, tradição agrícola e resistência cultural moldou uma das festas mais intensas e significativas do Nordeste.

A partir dos anos 1940, com Luiz Gonzaga e seu trio clássico — sanfona, zabumba e triângulo —, o forró virou símbolo do São João.

Muito além do forró, xote e baião
Apesar desses protagonistas, o São João reúne uma diversidade de outros ritmos tradicionais: coco de roda, marchinhas, emboladas, modinhas, polcas… No Maranhão, o tambor de crioula e o bumba-meu-boi também fazem parte da festa. Recentemente, muitos outros estilos musicais foram incorporados, reflexo da constante transformação de uma região que é uma verdadeira usina criativa.



“O sertão nordestino não é só seca. O interior do Nordeste produz frutas, vinhos, flores, mel, queijos premiados — e muito mais. O São João reflete essa abundância. Reduzir a região ao chão rachado e mandacarus solitários é reforçar estereótipos.”
Octávio Santiago



Celebração cada vez mais sustentável
Cada vez mais, as festas juninas têm adotado práticas conscientes, como o uso de materiais recicláveis e fogos de artifício silenciosos, a proibição de balões e fogueiras que respeitam a vegetação local.


Crédito da imagem de abertura: Janine Moraes / wikki commons