The Summer Hunter, o lado solar da vida

Uma cidade de sacis

Pra celebrar o Dia do Saci-Pererê (31/10), a gente mostra a Festa dos Lambe-Sujos e Caboclinhos pelo olhar do fotógrafo Eduardo Zappia.

Adriana Setti

Nos últimos tempos, o Brasil abraçou com força o jeito gringo de celebrar o Halloween: abóboras, gostosuras ou travessuras, fantasias monstruosas. Mas você sabia que 31/10 é o Dia do Saci-Pererê? Pra celebrar essa data brasileiríssima, a gente mostra a Festa dos Lambe-Sujos e Caboclinhos pelo olhar do fotógrafo Eduardo Zappia.

Todo segundo domingo de outubro, Laranjeiras, no Sergipe, vive um dos espetáculos populares mais vibrantes do país. Crianças, jovens, adultos e idosos lotam as ruas pintados de preto ou em tons avermelhados, com gorros, cocares, cachimbos e tambores. De um lado, os Lambe-Sujos representam os negros escravizados e quilombolas em luta por liberdade; do outro, os Caboclinhos simbolizam os indígenas que eram convocados pelos senhores dos engenhos pra capturar quem fugia. 

A imagem dos Lambe-Sujos pode lembrar a do Saci — corpo escurecido, cachimbo nos lábios, gorro vermelho, às vezes até pulando numa perna só. E não é coincidência: pesquisadores e mestres locais contam que escravos fugitivos se inspiravam no mito pra confundir os perseguidores na mata, além de usarem fuligem e melado como camuflagem. No imaginário da festa, o Saci aparece como símbolo de esperteza, travessura e rebeldia. São traços que sobrevivem nos participantes que tomam as ruas com energia, empurrões e gargalhadas, ao som de pandeiros, ganzás, tambores e cuícas.

Criada por pessoas negras alforriadas no século 19, a festa é um grande teatro popular a céu aberto, que preserva a memória da escravidão e da resistência negra. Antes do “embate”, os grupos são abençoados em dois caminhos espirituais que se cruzam: os Lambe-Sujos passam pelo tradicional terreiro Nagô Santa Bárbara, um dos mais importantes do Brasil, e todos se encontram depois na Igreja Matriz pra receber também a benção católica. É a fé africana e a fé cristã caminhando juntas nas ruas, como sempre caminhou o povo brasileiro.

Sobre o autor

Eduardo Zappia, fotógrafo e filmmaker paulistano, há mais de 20 anos registra grandes eventos esportivos e culturais com energia, precisão e sensibilidade.