The Summer Hunter, o lado solar da vida

Quem cuida de quem cuida?

Uma reflexão sobre caminhos possíveis pra que o cuidado não seja uma responsabilidade solitária.

Fernanda Nascimento

Geração sanduíche: pais idosos precisando de atenção, filhos pra criar e cuidar.

O desafio de conciliar essas duas (árduas) tarefas afeta diretamente a inserção e o desenvolvimento de quem cuida no mercado de trabalho. Além disso, a situação cria um círculo vicioso: menos renda leva a menos ajuda e mais sobrecarga.

No fim das contas, o prejuízo vai além da vida profissional e também afeta a saúde física e mental da pessoa responsável pelos cuidados. Tem solução?

Quem cuida de quem precisa cuidar?

Mulheres, cuidados e carreira:
60% dos adultos da geração sanduíche são mulheres e a renda média delas é 34% menor do que a dos homens na mesma situação.
 
34% das mulheres que convivem com idosos e filhos em casa estão fora do mercado de trabalho e 37% atuam profissionalmente em condição de informalidade.
 
Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua e levantamento realizado por Janaína Feijó, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas.
A pessoa que cuida também precisa de um tempo pra lazer, autocuidado e descanso. Mas, muitas vezes, sente CULPA ao se permitir um respiro.

“Trata-se do básico: dormir minimamente bem, fazer todas as refeições, ir à terapia, manter uma rotina de saúde, com exercícios e check-ups, e sustentar alguma vida social e de lazer. É uma questão de sobrevivência”.

Mariana Mello, jornalista dedicada ao estudo da gerontologia social e criadora da newsletter Maturidades

Favor? Não. Corresponsabilidade

Quando a pessoa a ser cuidada conta com mais de um familiar em sua rede (supostamente) de apoio, é fundamental haver uma divisão prática de tarefas, dentro de uma escala possível. Por exemplo: um trata da parte financeira, outro marca consultas, outro fica responsável pelas compras. O nome disso não é ajuda, mas dever.

Quem cuida precisa de cuidados:
Fazer terapia.
Dividir tarefas.
Descansar sem culpa.
Viver sua própria vida.
Se permitir momentos de diversão.
Impor limites.
Delegar.

“Fazer terapia é uma forma de lidar com o próprio desamparo, com o medo do envelhecimento, do morrer e da morte, além de compreender os conflitos que podem surgir na tarefa de cuidar e na relação com os outros cuidadores, em geral irmãos.”

Paula Cordeiro Zilio, psicóloga 

Em países onde o cuidado é tratado como responsabilidade coletiva, os impactos na saúde mental, na renda e na permanência no mercado de trabalho tendem a ser menores.

O papel do Estado

Cuidar de quem cuida também é uma questão social e econômica. A redução da jornada de trabalho é uma das medidas debatidas pra enfrentar a sobrecarga da geração sanduíche. Especialistas também defendem políticas públicas como ampliação da rede de cuidadores, acesso facilitado a apoio psicológico, centros-dia pra idosos e incentivos à flexibilização do trabalho.