The Summer Hunter, o lado solar da vida

Por que (sempre) amamos o pagode dos anos 90

Três décadas depois, a gente ainda sabe cada refrão de cor.

Fernanda Nascimento

Antes de virar fenômeno nacional e ir parar na programação dominical, o pagode foi chamado de brega e ignorado por sua origem negra e periférica. Mas quando alcançou os ouvidos de todo o Brasil, chegou pra ficar.

A gente aproveita o embalo do documentário Anos 90: A Explosão do Pagode, disponível no Globoplay dividido em três capítulos, pra lembrar essa história.

Tudo começou no… Fundo de Quintal
Eles não só inventaram um novo jeito de fazer samba, como adaptaram e até criaram instrumentos. Formado no fim da década de 1970 no Rio de Janeiro, o Fundo de Quintal transformou o pagode, nome dado a um encontro festivo, em gênero musical. Com o tantã, o repique de mão e o banjo com braço de cavaquinho, eles mudaram o timbre, a cadência e abriram caminho pra todos que vieram depois.
Quem viveu os anos 90, ouviu:
Raça Negra
Exaltasamba
Art Popular
Sem Compromisso
Grupo Revelação
Molejo
Sensação
Katinguelê
Pixote
Só pra Contrariar
Karametade
Negritude Júnior
Soweto
Os Morenos
Grupo Raça
Os Travessos

O Chic Show, tradicional baile black paulistano criado por Luizão nos anos 70, teve um papel importante na formação do pagode em São Paulo — como vitrine, mas também como influência musical e estética. Além de ser palco pra nomes como Péricles e Netinho de Paula, também foi um dos selos a apostar no movimento e, junto com a Zimbabwe Records, distribuir os primeiros discos.

foto: globoplay / divulgação

“O pagode dos anos 90 vai muito além da música. Quando começou a fazer sucesso, isso me ajudou a me entender como preto, a ter mais orgulho de ser preto. É um movimento transformador da sociedade.”

Thiaguinho, cantor e compositor, ex-integrante do grupo Exaltasamba, em depoimento ao documentário Anos 90: A explosão do pagode

O samba pede passagem

Tocar no programa de Moisés da Rocha era sucesso garantido. No ar pela Rádio USP há quase 50 anos, foi ele quem lançou nomes como Fundo de Quintal e Reinaldo, o príncipe do pagode, em seu O samba pede passagem. Numa época em que o rádio era a melhor forma de saber o que estava acontecendo no resto do Brasil, uma geração de ouvintes — e músicos — se formou sintonizada nesses programas.

Que pena, que pena, amor

É tarde demais, do Raça Negra, entrou pro Guinness Book como a música mais tocada no mundo em um único dia. Em 20 de julho de 1995, o hit foi reproduzido 600 vezes nas emissoras brasileiras.

Undererê
Nos anos 90, só dava homem no pagode. Puxadora e intérprete no Carnaval, Eliana de Lima foi uma das poucas vozes femininas a conseguir espaço nessa cena. Autora de Desejo de Amar, vendeu dois milhões de discos, fez parcerias com Alexandre Pires e ficou conhecida como a Rainha do Pagode. Já o Fora de Série, um dos primeiros conjuntos formados só por mulheres, perdeu o próprio nome numa disputa judicial e nunca chegou às paradas.
Futuro prometido
Ludmilla cantou pagode antes de estourar no funk. Gloria Groove estava na barriga da sua mãe quando ela era backing vocal do Raça Negra. Thiaguinho foi vocalista do Exaltasamba por quase uma década. Hoje, os três comandam projetos que levam esse som pra novos públicos, garantindo que a próxima geração também aprenda todos os refrões.