The Summer Hunter, o lado solar da vida

Por que amamos Tamara Klink

Dois anos após se tornar a primeira mulher a completar uma invernagem no Ártico, a navegadora lança seu quinto livro pra contar o que viveu presa no mar congelado.

Fernanda Nascimento

Isolada em um fiorde na Groenlândia, onde não amanhece por mais de três meses e as temperaturas chegam a -40 oC, Tamara Klink viu o mar virar gelo e o silêncio tomar conta do escuro. Em Bom dia, inverno, recém-publicado pela Companhia das Letras, a velejadora de 29 anos relata o que descobriu sem nada nem ninguém ao redor — e inspira sonhos tão grandes quanto os seus.

A gente tira o nosso chapéu pra ela e explica por quê.

“No Ártico entendi o que é ser humano antes de ser mulher, independentemente dos rótulos e dos nomes que a gente recebe ou não quando nasce. E descobri que ainda existem lugares onde o que a gente parece ser importa menos do que o que a gente é. Foi isso que permitiu que eu me sentisse tão livre.”

Tamara Klink em entrevista ao Fantástico, da Rede Globo

Por que amamos Tamara Klink

Tem medo. E vai com medo mesmo.
Em julho de 2024, Tamara zarpou com o veleiro Sardinha 2 rumo à invernagem. Pra chegar na Groenlândia, outro feito: ela foi a brasileira mais jovem a atravessar o Círculo Polar Ártico sozinha, desviando de icebergs e do seu próprio medo. Em 2021, já tinha se tornado a pessoa mais jovem do Brasil a atravessar o Oceano Atlântico sozinha — o relato está em Nós: o Atlântico em solitário.

“Quando passamos dias sem olhar nós mesmas no espelho, ver outros rostos ou encontrar outras vidas, vamos descobrindo nosso lado mais selvagem. E que o corpo é um instrumento muito mais complexo e capaz, com várias outras maneiras de ser além daquelas que a gente usa todos os dias.”

Tamara Klink no TEDx Cruzei o Atlântico sozinha, e não tive coragem

Sobrenome não cruza oceano

Sim, Tamara é filha de Amyr Klink, um dos maiores navegadores da atualidade. Em sua primeira invernagem, no início da década de 90, ele ficou sete meses preso na Antártica. Mas, ao contrário do que se imagina, a velejadora não contou com a orientação ou o dinheiro do pai. Desde cedo Amyr deixou claro que ela tinha que encontrar seu próprio caminho — e assim foi. 

É inspiração pra outras mulheres

Segundo Tamara, a pessoa que navega solitária não tem gênero, nem nome, nem idade. É só um ser humano que morreria em menos de um dia se não fossem os (poucos) objetos de que dispõe. E isso é assustador e libertador em idênticas proporções.

“Outros navegadores às vezes me dizem: ‘Não muda nada ser mulher ou homem’. Eu digo: ‘Justamente, não muda nada no mar’. Só que, pra poder fazer as mesmas coisas, a gente precisa começar de muito longe. Se eu penso na minha avó, ou até na minha mãe, elas não puderam sonhar com as mesmas coisas que eu.”

Tamara Klinkem entrevista à Marie Claire

Ri das próprias desgraças
Pra velejadora, o escuro do Ártico não foi tão escuro, graças à luz das auroras e das estrelas; o frio não foi tão frio, porque havia casacos; a solidão não foi tão solitária, graças à sua imaginação. Cair no mar congelado, se salvar graças a um pedaço de gelo e passar dias sem entender se estava viva ou morta? Faz parte.

É sábia

Suas vivências lhe trouxeram insights incríveis sobre liberdade, silêncio, tédio, medo, relação do ser humano com a natureza, finitude, sentido da vida, desapego, consumismo e os efeitos “mágicos” que a música e os sonhos exercem sobre nós quando estamos longe de tudo.