Por que amamos Ney Matogrosso
Aos 83 anos, com sua vida em perspectiva no filme “Homem com H”, o artista continua entregando tudo com seu jeito transgressor, intenso e único — sem jamais perder o rebolado.
Adriana Setti
Ney Matogrosso não é só cantor, intérprete, dançarino, ator e diretor — é um fenômeno. Desde os anos 1970, atravessa o tempo com a força e o frescor de quem nasceu pra brilhar. Com sua voz ímpar, seu caráter performático e sua coragem sem igual, continua moldando a música e a estética brasileira. A gente ama e explica por quê.
Não se entrega pros caretas


Filho de um militar rígido, foi servir à Aeronáutica apenas pra deixar a casa da família e a cidade onde morava, Bela Vista (MS), e se mudar pro Rio de Janeiro. Desprendido dos estereótipos de gênero — o que, em um Brasil conservador, sempre foi um ato político — peitou a ditadura com arte, brilho e beleza, mesmo sem levantar bandeiras.
“Diante da resistência das esquerdas em assimilar a liberdade sexual e de gênero, o desbunde pareceu, pra muitos, a política necessária e possível quando a caretice parecia ser bem distribuída em todos os campos do espectro ideológico.”
Renan Quinalha, autor de Contra a moral e os bons costumes: a ditadura e a repressão à comunidade LGBT, sobre Ney Matogrosso, na Folha de S.Paulo

Fez da maquiagem uma marca registrada
Ney entrou pra banda Secos e Molhados em 1971, quando o grupo procurava um substituto pro antigo vocalista. E resolveu pintar o rosto, inspirado nas máscaras de teatro kabuki, que viu no bairro da Liberdade, em São Paulo. A maquiagem foi uma maneira de manter, por um tempo, o rosto desconhecido do público. E tornou-se parte da sua identidade.

“O corpo do Ney é político. Ele é uma provocação viva. Está além do homem ou da mulher. Ele é bicho, ele é voz, ele é performance. É um artista que atravessa gerações e permanece relevante.”
Esmir Filho, diretor de Homem com H, em entrevista à CBN

Soa como raridade
Sua voz é de contratenor, um timbre raro em homens adultos, e que dá a ele múltiplas possibilidades de interpretação. Seja cantando sambas de Cartola ou um forró, sua versão sempre tem algo único.

· Visceral, dramático e sensível.
· Amigo de Rita Lee, paixão de Cazuza.
· Intriga a ciência com a flexibilidade de seus joelhos e quadris.
· Transita do underground ao mainstream.
· Tem os melhores adornos de cabeça.
· Camaleônico.
· Enredo de escola, biografado em papel e na telona.
É eterno
Aos 83 anos, Ney continua com uma energia absurda: no ano passado, lotou o estádio Allianz Parque, em São Paulo, com uma performance de uma hora e meia, física e vocal. Em 2025, segue com a turnê Bloco na Rua no Brasil e no exterior, mostrando que a expressão “força da natureza” foi feita para ele.

“Eu prefiro que me vejam sem rótulos, que não olhem pra mim e tirem uma conclusão. E há vários rótulos que inventaram a meu respeito. Mas eu não me guio por rótulos que criam sobre ninguém. Eu presto atenção na pessoa. O rótulo é chato, o rótulo já determina por baixo.”
Ney Matogrosso, em entrevista à Revista Fórum
Crédito da imagem de abertura: Arquivo Pessoal