The Summer Hunter, o lado solar da vida

Por que amamos Cássia Eller

Nova biografia revela as várias nuances dessa artista intensona, indomável e absolutamente inesquecível.

Adriana Setti

Em Eu queria ser Cássia Eller (HarperCollins), o jornalista Tom Cardoso revela os bastidores da vida de uma artista à frente do seu tempo, que desafiou padrões e expôs o preconceito visceral da sociedade brasileira contra tudo que não seja heteronormativo.

No embalo, a gente rende homenagem a essa força da natureza, que continua sendo símbolo de liberdade, entrega e autenticidade.

Fake news de si mesma
Cantora, compositora, musicista, mãe de Chicão, filha do militar Altair Eller e da cantora Nanci Ribeiro dos Reis, companheira de Maria Eugênia. Cássia Rejane Eller (1962-2001) foi muitas. Tom Cardoso conta que a sua relação com a imprensa era tão imprevisível quanto sua personalidade. A certa altura, insatisfeita com o que saía publicado, começou a mentir descaradamente e se divertia com isso.
“A despeito da timidez e do jeitão matuto, Cássia não abria mão de suas convicções, sobretudo quando tentavam transformá-la em outra pessoa.”
Trecho de Eu queria ser Cássia Eller (HarperCollins)

Diferente de todas

Em entrevista ao The Summer Hunter, Tom Cardoso conta que, assim como o célebre crítico musical Tárik de Souza, considera Cássia Eller a maior cantora de sua geração. Segundo ele, nenhuma outra artista consegue cantar com ela, o que explicaria o fato de não ter “herdeiras”.

“No início da carreira, as pessoas diziam que eu devia treinar a voz. Aí eu ouvi Zizi Possi, Gal, Elis, tentando aprender, mas acabei desistindo. Meu jeito é outro. O jeito do Cazuza: garganta lavada e atitude.”

Cassia Eller, em entrevista a Tom Cardoso

Interpretações inesquecíveis
Cássia transformava em pedrada tudo o que tocava. De Malandragem (Cazuza/Frejat) a O Segundo sol (Nando Reis), de Por enquanto (Legião Urbana/Renato Russo) a Smells Like Teen Spirit (Nirvana), passando por Mis penas llorava yo (Camaron de la Isla), foi capaz de cruzar MPB, rock, samba, blues e flamenco com a mesma verdade e potência.

“Entrevistei a Cássia algumas vezes, sabia que ela era uma pessoa muito tímida, lacônica. Mas desconhecia o seu lado perfeccionista. Achava que ela era mais punk, de fazer de improviso. E não. Era metódica e estudiosa. Tinha um lado muito João Gilberto.”

Tom Cardoso em entrevista ao The Summer Hunter

“Cássia é uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos. Nela está o espírito de Aracy de Almeida e Carmen Costa, de Maysa, Dolores Duran e Almira Castilho. Não é por acaso que seu rock’n’roll se refere ao flamenco, à canção francesa mais visceral e ao blues. Cássia é verdade pura.”

Caetano Veloso em suas redes sociais, no 16o aniversário da morte de Cássia Eller