The Summer Hunter, o lado solar da vida

Por que amamos Caco Barcellos

Ela brinca com as palavras, transborda no palco e, agora, coloca toda sua sensualidade, tristeza e birutice em novo disco

Fernanda Nascimento

Aos 76 anos, recuperando-se de uma cirurgia na perna, Caco Barcellos se viu outra vez no meio de um conflito. No início de abril, na noite em que Trump ameaçou o Irã com “o fim da civilização”, ele foi um dos únicos jornalistas do mundo autorizados a caminhar pelos escombros de Teerã e mostrar os impactos da guerra.

Entre zonas de perigo, presídios e hospitais, Caco está sempre onde muita gente prefere passar longe — e forma profissionais pra seguir o mesmo caminho.

É um contador de histórias

Ele não nasceu em uma família de escritores ou jornalistas, mas cresceu cercado de contos e causos. Seu avô, que levava o neto como assistente pra vender frutas em Porto Alegre, era um trovador e transformava em música as cenas que eles assistiam pelo bairro. 

“Na hora da trova, eu observava que uma história trágica era contada com grande humor, ou o contrário. E reportagem é isso. O que você busca na rua é o seu olhar e o olhar dos outros.”

Caco Barcellos, em entrevista a Drauzio Varella

É o melhor ouvinte

Caco ainda trabalhava como taxista quando conseguiu seu primeiro estágio num jornal de Porto Alegre, em 1973 — e não contou pra ninguém até um colega o flagrar no ponto e ele ser convocado a escrever sua primeira reportagem, sobre a experiência de dirigir pela cidade. Após mais de 50 anos de carreira, suas principais fontes jornalísticas são as mesmas: as ruas e as pessoas.

Do lado certo da história

Ele guarda todas as cartas e e-mails que recebe — e não são poucos. Tantas pessoas o procuram porque suas reportagens contam histórias de quem quase nunca é ouvido: moradores de periferias, vítimas de violências, presidiários… 

Por que amamos Caco Barcellos

Escreveu a nossa memória

Foram sete anos de pesquisas, muitos “não” e incontáveis ameaças de morte pra escrever o livro Rota 66 - A história da polícia que mata (1992). Premiada com um Jabuti, a obra é a mais extensa denúncia do sistema de extermínio da tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo e recentemente virou série do Globoplay.

“Eu venho da periferia de Porto Alegre e conheci de perto a violência do Estado. Pouco se investiga sobre a vida das pessoas mortas pela polícia, pois são apresentadas à sociedade como bandidos desconhecidos. Eu consegui identificar 4.200 jovens.”

Caco Barcellos no programa Altas Horas

Escola Caco Barcellos

Enquanto todo mundo quer falar, o jornalista prefere escutar e mostrar que uma história tem muito mais que dois lados. Com o Profissão Repórter, que foi programa fixo na Globo por 17 anos e hoje é um quadro no Fantástico, ele ensina profissionais a fazer jornalismo de verdade — e continua em busca de estudantes pra contar as histórias que precisam ser ouvidas.