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Perdoar faz bem pra saúde

O que a ciência descobriu sobre o rancor — e o preço que pagamos por ele.

Fernanda Nascimento

Dizem que errar é humano e perdoar é divino, mas os pesquisadores já entenderam que o perdão vai além de um dom ou uma virtude moral: é uma habilidade que pode (e deve) ser treinada. 

As mágoas têm consequências reais na mente e no corpo — e não apenas em quem as causou. Aqui, a gente explica por que cuidar do que ficou guardado pode fazer bem pra saúde.

A ciência do rancor

Quando você revive uma mágoa, seu corpo responde como se a ameaça estivesse acontecendo agora.

Num estudo publicado na Psychological Science, pesquisadores do Hope College, nos Estados Unidos, mediram a reação fisiológica ao revisitar memórias dolorosas: tensão muscular, pressão arterial alterada e frequência cardíaca elevada.

“Se você pensa no rancor como uma forma de stress, o aumento do cortisol afeta todos os sistemas do seu corpo — cardiovascular, gastrointestinal, imunológico —, gerando efeitos físicos como colite, dor crônica… Em níveis altos, pode ainda encolher o cérebro, em particular o hipocampo, e interferir no processamento das memórias.”

Everett Worthington, pesquisador e coautor do estudo, em entrevista ao Psychology Tools

O problema não é sentir raiva: ela também serve pra avisar que um limite foi cruzado. Só que cultivá-la não pune quem errou, mas quem guardou.
Perdoar faz bem pra saúde

O perdão não significa:

. Dizer que o que aconteceu foi aceitável.
. Reconciliar com a pessoa que te magoou.
. Esquecer o que aconteceu.
. Abrir mão de buscar justiça.
. Deixar de se sentir triste.

Perdoar alguém hoje pode melhorar seu bem-estar daqui a um ano? 

Um estudo recente realizado em 23 países diz que sim. Pesquisadores de Harvard mediram o nível de perdão de mais de 200 mil pessoas — e voltaram doze meses depois pra avaliar os impactos na saúde. Quem tinha o hábito de perdoar relatou mais felicidade, menos depressão e mais senso de propósito.

“Cada vez mais, os pesquisadores perguntam se o perdão pode ser ensinado em escala — não apenas como terapia, mas como uma estratégia de saúde pública capaz de melhorar a vida emocional de comunidades ou até de populações inteiras.”

Trecho da reportagem “How to let go of grudges — and why it could be good for your health”, do The Washington Post

Um dos maiores estudiosos do assunto, o pesquisador norte-americano Everett Worthington desenvolveu um método com cinco etapas e testou com mais de 4 mil pessoas em cinco países. O resultado? A ansiedade diminuiu.
O método do perdão

. Recordar a mágoa de forma objetiva, acolhendo os sentimentos.
. Tentar entender a perspectiva de quem errou, sem absolver ou invalidar o que aconteceu.
. Reconhecer que você também já errou e precisou ser perdoado.
. Se comprometer com o perdão como decisão, e não emoção.
. Sustentar essa decisão quando as memórias voltarem.

Prática diária

É claro que algumas mágoas demandam tempo pra serem curadas e a ajuda de um profissional pode facilitar o processo. Mas dá pra começar a treinar essa habilidade no cotidiano: um estranho que foi ríspido com você, o carro que te fechou no trânsito… O importante é trabalhar pra que o rancor não ocupe mais espaço do que merece.