The Summer Hunter, o lado solar da vida

O que tem pra jantar?

Uma reflexão sobre o trabalho invisível das mulheres que lidam (e se irritam) com essa pergunta todos os dias.

Fernanda Nascimento

Planejar, lembrar, organizar, antecipar e coordenar são etapas que nem sempre entram na conta do esforço que uma tarefa exige, especialmente quando o assunto é trabalho doméstico.

Mas quando mal (ou nada) dividido, o cuidado com a casa, com os filhos ou com os familiares idosos — que recai principalmente sobre as mulheres — pode se tornar insuportável.

Tendo como inspiração um texto da escritora Giovana Madalosso publicado recentemente na Folha de S.Paulo, a gente reflete sobre o assunto.

Cabeça cheia

Enquanto uma pessoa está relaxando na frente da televisão no fim de um dia cansativo, a outra está pensando no peixe que precisa sair do congelador, no presente pro aniversário da sogra, na consulta que ainda não marcou ou na vacina do cachorro. O descanso não é igual pra todo mundo — e uma das razões disso tem nome: carga mental.

“O que tem pra jantar?”
O preparo de uma refeição começa muito antes de ligar o fogo.

(  ) Ver o que tem na geladeira.
(  ) Não deixar a sobra de ontem estragar.
(  ) Lembrar que o azeite está acabando.
(  ) Elaborar um cardápio que agrade a todos.
(  ) Fazer a lista de compras.
(  ) Controlar o orçamento do mês.
(  ) Ir ao mercado.
(  ) Cozinhar.
A dedicação ao trabalho fora de casa pode ser a mesma, mas do lado de dentro…

Segundo o IBGE, as mulheres dedicam quase o dobro do tempo dos homens à casa e à família:

♀ 21,3 horas  ///  11,7 horas ♂
por semana

Um levantamento da Think Olga mostrou que 57% das mulheres de 36 a 55 anos cuidam de alguém.

“Deixa que eu te ajudo”

Cortar as cebolas ou tirar o lixo quando alguém pede não significa gerenciar uma casa. Afinal, entender o que precisa ser feito, explicar a alguém como faz e acompanhar se a tarefa foi realizada já é, em si, um trabalho — e também deve ser compartilhado.

Se você diz essas frases com frequência, existe uma pessoa sobrecarregada perto de você (e provavelmente ela é uma mulher):

“Era só você pedir.”
“Deixa que depois eu faço.” 
“Não sabia que precisava.”
“Você que sabe fazer.”
“Nem pensei nisso.”
“Me lembra amanhã.”

“Você é melhor nisso!”

Não, ninguém nasce com um chip programado no cérebro pra fazer a lista de compras perfeita, deixar as roupas branquinhas, lembrar de compromissos importantes ou antecipar as necessidades de uma casa e de quem está por perto. Qualquer adulto funcional pode aprender, basta querer.

“Dividir a sobrecarga mental não é apenas justo, mas fundamental pra termos as mesmas chances de florescer pessoal e profissionalmente, ou de pelo menos dormir sete horas por noite, coisa rara entre muitas mães.”

Giovanna Madalosso, escritora e roteirista, no texto “‘O que tem pra jantar?’ e a sobrecarga mental”, em sua coluna na Folha de S.Paulo