The Summer Hunter, o lado solar da vida

O que podemos aprender com Dercy Gonçalves

Em 101 anos, ela fez da própria vida um espetáculo, sem nunca pedir licença ou perder a graça.

Manuela Stelzer

Dercy Gonçalves foi chamada de feia, analfabeta, vulgar, indecente e velha — antes mesmo de completar 40 anos. Mas em vez de se render à patrulha moral, ela desobedeceu, prometeu incomodar em dobro e se tornou a atriz com a carreira mais longa da história, com direito à homenagem no Livro dos Recordes pelos 86 anos ininterruptos no palco.

Irreverente e defensora ferrenha da liberdade, a artista deixou lições que seguem atuais. A partir do livro Dercy: a diva debochada (Ed. Objetiva), da jornalista Adriana Negreiros, a gente revisita algumas delas.

Querer sempre mais

Dercy nasceu em Santa Maria Madalena, uma cidade de 10 mil habitantes na serra fluminense a 260 km da capital. Curiosa sobre “o que havia depois das montanhas”, fugiu de trem de sua terra natal aos 17 anos, foi dos circos mambembes aos palcos da Praça Tiradentes, no Rio, e não desistiu até alcançar o estrelato nacional.

Uma Certa Lucrécia (1957)
A Baronesa Transviada (1957)
A Grande Vedete (1958)
Cala a boca, Etelvina (1958)

“Em outra encarnação, vou ser a maior put@ do mundo!”

Durante toda a vida, foi tachada como “pornográfica” e “imoral”, mas sempre respondeu com sua arma mais poderosa: o humor. Em vez de se incomodar, prometeu fazer jus às acusações.

Quem sabe faz ao vivo
Dona de uma agilidade que lhe permitia tomar decisões rápidas — e engraçadas — diante de centenas de olhos cravados nela, como descreveu Adriana Negreiros, Dercy nunca foi de decorar falas. Estrela de grandes sucessos de bilheteria e apaixonada pelo teatro, fugia dos roteiros e entrava no palco como quem domina o tempo da comédia, estabelecendo uma conexão só dela com o público.

Pátria amada

Dercy zombava de quem achava chique tudo que vinha de fora — era uma brasileira de carteirinha. Segundo Sábato Magaldi, um de seus grandes admiradores, ela dava “uma profunda lição de brasilidade” em cima do palco, misturando irreverência e sagacidade com um humor de raízes circenses.

“A morte pode querer me descansar, e eu não quero descanso. Eu queria trabalhar. Eu gosto da vida. Eu acho a vida linda.”

Dercy Gonçalves, atriz e humorista