O hype da fé: Halt Fever
A Halt Fever nasceu da frustração de Gabriel Quintino, 22, com os bastidores da moda. Depois de ver de perto a distância entre discurso e prática na indústria, ele criou uma marca urbana autoral, feita com peças duráveis e uma lógica mais crítica em relação à tendência. Sem se apresentar como marca religiosa, a Halt… Ver artigo
Edson Silva
A Halt Fever nasceu da frustração de Gabriel Quintino, 22, com os bastidores da moda. Depois de ver de perto a distância entre discurso e prática na indústria, ele criou uma marca urbana autoral, feita com peças duráveis e uma lógica mais crítica em relação à tendência. Sem se apresentar como marca religiosa, a Halt Fever acabou encontrando na fé, no arrependimento e na espiritualidade um repertório visual importante. Hoje, trabalha com peças de longa rotação, com preços entre cerca de R$ 200 e mais de R$ 2 mil.
Quando e por que você criou a Halt Fever?
A marca começa a existir em 2023, mas foi lançada oficialmente há menos de um ano. Ela nasce de uma frustração com a indústria da moda. Trabalhei nos bastidores e comecei a perceber incoerências entre discurso e prática. As marcas onde eu trabalhava iam contra o que eu acreditava ser o mínimo: uma moda mais digna, respeitosa e coerente.


Como você define a sua marca?
Eu defino como uma marca de moda urbana autoral. Nunca usei o termo streetwear porque acho limitado. Quero criar roupas pra todos os contextos da vida urbana — trabalho, casa, rua, social. A marca também tem pilares muito claros: autenticidade, durabilidade e respeito com quem compra, com quem produz e com o próprio universo da marca.
Em que momento a fé ou o imaginário religioso fizeram sentido no seu trabalho?
Foi algo muito orgânico. Uma peça específica, ligada à ideia de arrependimento religioso, acabou virando o centro da coleção. Quando percebi, várias peças conversavam entre si dentro desse imaginário. Não foi planejado como “uma marca cristã”, mas veio naturalmente da minha criação, da minha relação com a fé e da presença muito forte da religião dentro da minha família.
“Eu acho muito difícil que uma religião se propague no mundo sem ter uma estética bem construída.”
Gabriel Quintino
Isso nasce de crença pessoal ou de interesse estético?
Começa na vivência. Eu sou uma pessoa religiosa, mesmo que não demonstre isso o tempo todo. A estética veio depois, como forma de traduzir visualmente algo que já fazia parte da minha vida. Não foi uma escolha estratégica.
Quando a religião vira roupa, estamos falando de fé ou estética?
Dos dois. A religião sempre teve uma estética muito forte — especialmente no catolicismo. Um vitral, uma túnica, a arquitetura de uma igreja: tudo isso também comunica visualmente. No meu caso, a estética foi a maneira que encontrei de falar sobre fé. Mas, quando a peça sai do meu escritório, ela deixa de me pertencer. Pra alguém, aquilo pode significar fé. Pra outra pessoa, só estética — e tudo bem.
A relação dos jovens com a fé mudou nos últimos anos?
Acho que minha geração já nasceu com uma relação diferente com religião. Menos institucional, mais atravessada por linguagem, comportamento e estética. E a religião também está tentando se adaptar a isso. O jeito que meu avô entendia a fé é diferente do meu, mas talvez a gente continue falando da mesma coisa por caminhos diferentes.
