A vida do mercado Ver-o-Peso
Com origem em 1625, o Ver‑o‑Peso é, hoje, mais do que um ponto turístico ou a maior feira livre a céu aberto da América Latina: é um símbolo vivo de Belém.
Dandara Fonseca
O Mercado Ver-o-Peso começou a ganhar forma em 1625, com a criação da Casa de Haver o Peso — um posto fiscal colonial onde mercadorias eram pesadas e impostos cobrados. Ao longo dos séculos, o espaço se transformou e se expandiu até que, em 1901, a inauguração do Mercado de Ferro, marco arquitetônico que define o conjunto até hoje, consolidou o lugar como um dos principais centros comerciais do país.

Atualmente, o Ver-o-Peso é considerado a maior feira livre a céu aberto da América Latina, com movimento quase ininterrupto ao longo do dia e da noite. Mas, mais do que números ou títulos, o mercado é um símbolo vivo de Belém, onde sabores, cultura e a vida cotidiana da cidade coexistem.

Nascida e criada em Ananindeua, cidade vizinha a Belém, Nay Jinknss documenta o Ver-o-Peso há mais de 15 anos. Sua relação com o mercado, no entanto, é ainda mais antiga e remonta a memória da sua família. “Minha vó foi feirante no Ver-o-Peso, minha mãe trabalhou lá vendendo sapatos. Sou a terceira geração da família que trabalha com o Ver-o-Peso”, conta.
Apesar de já ter visitado outros mercados pelo Brasil, a paraense afirma que nenhum é igual a essa “grande feira que nunca dorme”. “É um lugar que tem corpo, que tem sua própria língua, tem sua própria moeda, tem música, tem cheiro, tem pessoas de todos os tipos, do rico ao pobre.”


Enquanto muitos fotógrafos se concentram na arquitetura do espaço, o olhar de Nay se volta pra quem sustenta o mercado no dia a dia. “Estou interessada no que os trabalhadores do Ver-o-Peso têm a dizer, no que esses saberes sussurram sobre a gente”, explica.
“Gosto de conversar com o Ver-o-Peso, de olhar pro rio, sentir o vento, observar os urubus revoando e anunciando a chuva, as garças se organizando pra dormir. Toda aquela encantaria.”

Sobre a autora
Mulher negra, lésbica e paraense, Nay Jinknss atua como artista visual, educadora social, artivista LGBTQIAP+ e pesquisadora. Em seus trabalhos, utiliza a metodologia da fotografia compartilhada, que entende quem está diante da câmera não como objeto, mas como sujeito — um poço de histórias potentes, singulares e coletivas.