Marcelo Gleiser responde: como podemos reaprender a dialogar?
Um papo exclusivo com o físico, escritor e astrônomo ganhador do Prêmio Templeton.
Adriana Setti
No livro A humanidade em busca de si (Editora Record), lançado recentemente, o físico Marcelo Gleiser e o historiador e filósofo Leandro Karnal mergulham em nossos grandes dilemas atuais.
Durante o Rio Innovation Week, conversamos com Gleiser sobre um deles: como podemos reaprender a ouvir, conversar e sermos humanos em um mundo hiperconectado?



Se manter aberto ao outro é um princípio da vida de Marcelo Gleiser. Segundo o físico, quando você se fecha dentro das suas próprias convicções, fica paralisado enquanto pensador.
É preciso manter a cabeça aberta ao novo, ao outro e a opiniões que são diferentes das suas.
De acordo com Gleiser, um dos maiores obstáculos pro diálogo é o que chama de TRIBALISMO RADICAL. Ao assumir que apenas os valores da sua tribo são os corretos, você marginaliza as pessoas que não fazem parte dela e deixa de ter abertura intelectual e emocional pra ouvir opiniões diferentes da sua.
“É muito importante a gente entender que por trás de opiniões diferentes sempre tem um ser humano. Que também quer ser amado, que também quer ser respeitado, que também quer ter uma vida digna. Toda pessoa que tem uma opinião diferente da sua é alguém com uma história de vida que merece ser ouvida.”

Marcelo Gleiser
O que estamos negligenciando sobre a experiência humana hoje?
O físico explica que evoluímos durante 300 mil anos pra podermos interagir de uma forma holística. A comunicação não se dá apenas com a voz ou as palavras: o corpo tem uma linguagem. Não interagir ao vivo e não ter aquela troca direta de emoções é uma perda muito perigosa pra nossa humanidade.
Na Internet, as pessoas se escondem atrás de uma personalidade e acham que podem agredir os outros impunemente, fazendo coisas que certamente não teriam coragem de fazer cara a cara.
É o que Gleiser chama de COVARDIA DIGITAL.
“Uma das coisas que mais preocupa é que as pessoas não se olham mais nos olhos. Quando você interage com o outro através de uma tela, você não está vendo ele, você está vendo uma projeção plana de uma outra pessoa.”

Marcelo Gleiser