The Summer Hunter, o lado solar da vida

Loiro Pivete

Descolorir os cabelos nas favelas do Rio pode parecer apenas uma escolha estética — na verdade, é um gesto carregado de resistência, identidade, moda e cultura popular.

Dandara Fonseca

Ao longo de todo o ano, jovens das favelas do Rio de Janeiro — os “crias” — vão ao salão, à barbearia ou se reúnem em lajes e becos com um mesmo objetivo: descolorir os cabelos. O hábito ganha ainda mais força com a chegada do verão, do Ano Novo e do Carnaval. Mas não é apenas o calor ou o clima de festa que impulsionam a escolha: esses períodos também oferecem uma pausa nas obrigações e, com ela, mais liberdade pra experimentar e se expressar.

Esse ritual quase religioso mexe diretamente com a autoestima de pessoas que por muitos anos ouviram que não eram bonitas e tiveram negado o direito de sentir orgulho do próprio corpo e vaidade. Ao mesmo tempo, fortalece um sentimento de aspiração e pertencimento entre os moradores desses territórios que carregam singularidades, mas compartilham referências, afetos e modos de existir.

As imagens do fotógrafo têm como principais cenários a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e a Baía de Todos os Santos, na Bahia, locais que já foram portos de chegada de pessoas escravizadas. Mas Wendy escolhe registrar esses meninos não pela lente da dor, e sim pelo instante em que brincam, sorriem e se lançam à água.

Na investigação visual “Louro Pivete: cultura e tendência de descolorir os cabelos na favela”, Salém, ou @fotogracria, mostra como essa estética, que surgiu nas periferias e hoje é replicada em diferentes lugares e contextos, se tornou um ato de resistência, afirmação e orgulho, desafinando narrativas superficiais e celebrando a criatividade inerente às periferias.

“Antigamente, o louro pivete era um termo pejorativo, usado pra falar de alguém que tinha a pele escura ou que era pobre e que estava pintando o cabelo de loiro, como se não combinasse. A gente pegou isso, ressignificou e falou: é, sou mesmo, lourão, pivetão, bonitão. Vai ter que aturar.”

Sobre o autor

Artista, diretora, roteirista e produtora de conteúdo, Fotogracria, como gosta de ser chamada, é “a cria que tira fotos dos cria” da Rocinha. Com imagens que já foram reproduzidas em lugares como o Rock in Rio e o Museu de Arte do Rio (MAR), um dos seus principais objetivos é retratar o lugar onde nasceu para além dos clichês.