A artista que pediu silêncio e postais: conheça Inki, um dos nomes mais solares do Iceland Airwaves 2025
Um dos destaques do Iceland Airwaves, Inki convidou o público a escrever postais. Aqui, ela fala sobre inspirações, desafios e a busca pela simples.
Ricardo Moreno
Bem longe de, literalmente, quase todo mundo, numa ilha no meio do Atlântico Norte, Reykjavik, a capital da Islândia, ostenta o título de capital mais ao norte do planeta Terra. No início de novembro, essa cidade compacta de pouco mais de 135 mil habitantes vira um microcosmo da música global. Pequena no tamanho, mas gigante em personalidade, Reykjavik combina ruas silenciosas, casas coloridas, piscinas geotérmicas fumegando no frio e um ritmo de vida que oscila entre a introspecção nórdica e uma criatividade quase vulcânica — alimentada pelo vento, pelo isolamento e pelo jeito direto (e simpático) dos islandeses.
É nesse cenário compacto e vibrante que rola o Iceland Airwaves, festival que nasceu em 1999 dentro de um hangar de avião e hoje toma conta da cidade inteira: igrejas, clubes pequenos e grandes, cinemas alternativos, lojas de discos e até apartamentos de moradores. Não à toa, o evento já foi descrito como “um maravilhoso ponto fora da curva no circuito dos festivais do mundo”, pelo The Independent, da Inglaterra, e como “o fim de semana mais descolado do calendário anual de festivais de música”, segundo a edição norte-americana da Rolling Stone.

Reykjavik funciona como uma incubadora natural de criatividade — a mesma terra que moldou Björk, Sigur Rós e mais recentemente Laufey — e o Iceland Airwaves como seu porta-voz mais ousado, um vetor afiado da música emergente e um dos festivais mais progressistas da Europa: foi um dos primeiros do mundo, por exemplo, a adotar 50% de mulheres no line-up, ainda em 2018, muito antes do debate sobre equidade ganhar o mainstream.
Nesta 26ª edição, que rolou entre os dias 6 e 8 de novembro, foram 110 artistas de 20 países, espalhados por oito endereços oficiais e uma infinidade de shows off-venue que surgem no boca a boca, no improviso. Isso significou ver, em pouco mais de 72 horas de programação, o caos pós-punk do Fat Dog e do Getdown Services, a maturidade emocional da jovem mexicana Silvana Estrada, o pop emotivo da islandesa Bríet, o futurismo retrô da islandesa-norueguesa Lúpína, o retorno dançante do cultuado Retro Stefson e o pop onírico e teatral de Iðunn Einars, pra ficarmos em apenas alguns exemplos.



E, no meio de tantas descobertas, um nome brilhou com força especial: Ingibjörg Friðriksdóttir, ou simplesmente Inki. Compositora premiada, produtora inquieta e uma das vozes mais interessantes da cena local, a islandesa de 36 anos entregou um show que misturou beleza, surpresa e humanidade. Além de apresentar músicas do seu novo álbum Locally Grown, criou um gesto simples e poderoso: o projeto Postcards from Iceland Airwaves, que convidava o público a escrever cartões-postais à mão num festival celebrado pela inovação, mas que nunca esquece do essencial. A seguir, um papo que tivemos com ela, por e-mail, no dia seguinte à apresentação.

Seu projeto Postcards from Iceland Airwaves é poético e totalmente analógico: pedir pro público enviar cartões-postais escritos à mão num mundo ultra-digital. De onde veio essa ideia — e que tipo de conexão você queria criar?
Nas semanas que antecederam o festival, eu queria que o show tivesse algo único e íntimo pra quem estivesse lá. Fiquei pensando sobre como a gente se conecta hoje — quase sempre pelas redes — e como isso pode ser meio impessoal. Daí nasceu o Postcards from Iceland Airwaves. Durante o show, convidei o público a escrever cartões pra alguém especial, e eu mesma me comprometi a enviá-los depois. Um bilhete escrito à mão tem outro peso; era um jeito simples de devolver um momento humano pra quem estivesse comigo ali. Isso também conversa com a ideia do meu álbum Locally Grown, que celebra esses pequenos instantes que acabam nos conectando de verdade.
Num tempo em que quase tudo acontece por telas, o que a gente perde quando para de celebrar esses pequenos momentos humanos?
Acho que existe muita coisa boa nas redes: você tá sempre dando uma “cutucada” nos amigos, compartilhando coisas que fazem rir, lembrando alguém de você. Isso mantém todo mundo perto. Mas às vezes a gente confunde isso com conexão real, e não alimenta do mesmo jeito. Abraços sempre foram importantes pra mim. Estar presente, ouvir a risada de alguém, ver os pequenos gestos que só percebemos de perto. É isso que recarrega a gente. As redes são ótimas, mas nunca vão substituir esse tipo de proximidade.


Seu novo álbum, Locally Grown, é inspirado em histórias do cotidiano e nas pessoas ao seu redor. O que “locally grown” (cultivado localmente, em inglês) significa pra você, musical e emocionalmente? E quando o disco sai?
Locally Grown fala desses encontros do dia a dia, de momentos aparentemente aleatórios que moldam como você enxerga o mundo. Pra mim, significa encontrar sentido perto de casa, nas conversas simples, nas pessoas comuns. A gente espera que sabedoria venha de grandes filósofos, mas às vezes ela surge de conversas rápidas com estranhos. Estou lançando um single por vez (já saíram cinco!) e o álbum completo chega no ano que vem, em 2026.
Você pode contar algumas histórias por trás das músicas?
Islander foi a primeira faixa lançada. Ela abre com duas conversas que me marcaram: um bêbado num bar dizendo que eu precisava deixar a Islândia pra ter futuro, e uma médium me dizendo pra parar de me preocupar com o futuro. Foi irônico pagar uma médium pra ouvir isso. Em outubro, lancei I Think We Would Have Been Friends em duas versões: uma para o amanhecer e outra para o entardecer. É sobre a irmã da minha avó, um espírito livre que dançava sobre as mesas e vivia sem pedir desculpas. Lembro dela de quando eu era pequena e, ao escrever a letra, também voltei a memórias e relatos escritos sobre ela pra entendê-la melhor. Ela é exatamente o tipo de pessoa que eu adoraria ter como amiga. A música fala sobre como as histórias podem nos conectar através do tempo. Como você pode se sentir próximo de alguém mesmo que não tenha realmente compartilhado o mesmo momento da vida.

Você descreve o disco como “intimidade emocional embrulhada em junk food”. Pode explicar?
Isso nasceu da música On Earth or Elsewhere, que sai no começo do ano que vem, em 2026. Ela conta a noite em que conheci um dos meus melhores amigos. Eu apareci na festa de Eurovision dele com fast-food porque fiquei com fome no caminho. Coisas simples, quase bobas, que acabam virando laços profundos. Acho que diz muito sobre como a gente vive hoje: amizades e afetos muitas vezes começam nos intervalos, não nos momentos perfeitos. É nos instantes bagunçados que vivem as melhores histórias.
Você começou como compositora erudita antes de entrar no alt-pop. Qual foi o ponto de virada?
Começou com solidão. Eu tocava em bandas e tinha essa conexão humana de criar música junto. Depois passei anos sozinha no estúdio compondo. Amava o processo, mas sentia falta da troca. Mudar pro alt-pop foi um jeito de recuperar isso. De fazer algo mais vivo, mais conectado.
Você já tinha uma carreira sólida como compositora antes de se assumir artista independente. Como foi essa transição e quais os maiores desafios?
Não foi uma transição lenta — eu simplesmente decidi fazer um álbum completamente diferente, Thoughts Midsentence, e fazer tudo que me dava medo. Escrevi algo super pessoal (Silverlight), fiz um cover (Do I Wanna Know?), fui pra um som mais pop. Achei que estava fechando portas, mas aconteceu o contrário. Estou mais feliz assim. A música é um terreno difícil; se você vai investir tanto tempo e energia, precisa fazer o que realmente provoca aquele frio na barriga.

Como sua formação em composição influencia seu trabalho hoje?
No palco, penso o show como uma peça completa: interlúdios, transições, clima. Tudo tem que fluir. Isso dá atmosfera, mas às vezes complica demais — ainda estou aprendendo a beleza da simplicidade. “Buscar simplicidade” é meu maior desafio hoje.
E agora, o que vem depois do Iceland Airwaves?
Em 2026 lanço Locally Grown e faço shows na Islândia e fora. Tem muita coisa chegando, mas ainda não posso contar. Talvez o Postcard Project viaje comigo — as pessoas se conectaram lindamente a ele. Mas antes disso tudo, vou conhecer minha filha. Eu estava com 39 semanas grávida no festival, então agora é hora de desacelerar. Já sinto que ela é uma pequena alma selvagem pronta pra criar seu próprio caminho. O meu tipo de menina!