Geometria carioca
A engenhosidade dos barraqueiros que, no fim do dia, equilibram cadeiras, coolers e guarda-sóis em verdadeiras esculturas ambulantes que desfilam pela orla do Rio de Janeiro.
Manuela Stelzer
Quantos detalhes passam despercebidos em um dia de praia, em meio à multidão que ocupa as areias do Rio de Janeiro? É um tal de mate pra lá, biscoito pra cá, conversas paralelas, altinha rolando na beira da água. Quem não olhar atentamente pode perder um dos mais antigos rituais do fim de tarde: as esculturas de guarda-sóis, cadeiras e coolers que os barraqueiros constroem em cima dos carrinhos.


Durante meses, o fotógrafo João Pedro Januário observou diariamente essa logística. “Eles organizam esses carrinhos cada dia de um jeito. Qualquer mudança de lugar é o suficiente pra nascer um novo formato”, explica. “São verdadeiras esculturas ambulantes, montadas e desmontadas diariamente nos calçadões.”


Pra capturar essa geometria carioca, ele tirou o foco do mar e da areia e olhou pro emaranhado de linhas e cores, composto de objetos diversos. “Eu queria destacar as formas criativas que cada barraqueiro cria pra solucionar as diferentes necessidades de encaixe”, conta. “A forma do carrinho de hoje não será a do carrinho de amanhã.”

O resultado é a série “Equilíbrio”, que enquadra a engenhosidade de quem faz o caos parecer harmonia — e prova que a arte do Rio também está na criatividade de quem faz a vida ali, nas areias cariocas.

Sobre o autor
João Pedro Januário nasceu no Rio de Janeiro, em 1990. Em seu trabalho, constrói narrativas e cenas estruturadas a partir de suas vivências cotidianas pela cidade. Em uma mesma foto, procura enquadrar as pessoas, as formas e o espaço, registrando o convívio, questionando comportamentos sociais e afinando seu olhar para as artes visuais.