The Summer Hunter, o lado solar da vida

Expressões impossíveis de traduzir

Nem a melhor IA consegue captar o contexto e as histórias por trás de cada uma dessas frases.

Dandara Fonseca

Graças à tradução automática, hoje conseguimos entender expressões, textos e vídeos de vários lugares do mundo. 

Mas um gringo desavisado não pode levar tudo que escuta ao pé da letra: existem pérolas da língua portuguesa que são praticamente impossíveis de traduzir — pelo menos sem perder parte do significado ou da graça. Aqui, contamos a origem de algumas delas. 

Maria vai com as outras 

María va con las otras (ES)

Quem nunca usou essa frase pra se referir àquela pessoa que parece não ter opinião própria?

Sua explicação mais famosa remonta aos tempos da corte portuguesa no Brasil. Declarada incapaz de governar, D. Maria I, mãe de D. João VI, vivia reclusa e só era vista quando saía pra caminhar com suas damas de companhia. Ao vê-la, o povo comentava: “Lá vai Dona Maria com as outras!”.

Fazer uma vaquinha 
Faire une petite vache (FR)
Como várias expressões do nosso vocabulário, essa teria origem no futebol — e no jogo do bicho. Na década de 1920, a torcida do Vasco arrecadava dinheiro para os jogadores em caso de vitória. O prêmio mais desejado era a “vaca”, número 25 no jogo do bicho e que, nesse caso, representava 25 mil-réis.

Arroz de festa

Partyreis (DE)

Existem duas explicações conhecidas. A primeira remete ao costume de jogar arroz nos noivos após o casamento. A segunda, considerada mais provável, diz respeito ao arroz-doce, sobremesa que por muito tempo foi presença quase obrigatória nas festas, tanto no Brasil quanto em Portugal. Aos poucos, o nome do prato passou a ser usado pra se referir a quem não perde um convite por nada.

Terminar em pizza 
Finire in pizza (IT)
Na década de 1960, dirigentes do Palmeiras passaram 14 horas reunidos discutindo os rumos do clube. Sem chegar a um acordo, foram até uma pizzaria matar a fome. No dia seguinte, a Gazeta Esportiva estampou a manchete: “Crise do Palmeiras termina em pizza”. E assim a frase passou a representar aquela situação que acaba sem solução — ou sem que ninguém seja responsabilizado.

Cheio de nove horas

Full of nine hours (EN)

Como esse horário virou sinônimo de alguém cheio de manias?

A explicação mais conhecida remete ao século 19. Na época, nove da noite era a hora considerada adequada pra se recolher. Quem seguia esse costume à risca era visto como certinho, meticuloso. Com o tempo, a expressão também começou a ser usada pra descrever quem complica o que poderia ser simples.

O fim da picada 
El fin de la picadura (ES)
Picada de inseto? De algum animal? Nada disso. Esse é o nome dado à trilha aberta no meio da mata com golpes de facão, “picando” árvores, galhos e folhas. Então, quando se chega ao fim da picada, não há mais por onde seguir. Sinônimo de uma situação absurda, ruim ou que passou de todos os limites, a frase aparece até nas obras de Carlos Drummond de Andrade e de Tom Jobim.

São outros quinhentos 

It’s another five hundred (EN)

Quem pode explicar de onde vem esse valor são os portugueses, com quem compartilhamos o idioma.

Tudo teria começado com um costume jurídico da Península Ibérica: quinhentos soldos era a indenização que um agressor condenado deveria pagar por injúria. Se ele voltasse a insultar a vítima, aí seriam… outros quinhentos, literalmente.

Várias dessas expressões circulam em outros países que falam português — e as novelas brasileiras foram fundamentais pra isso. Mas a falta de registros concretos torna difícil cravar suas origens. Muitas das explicações mais conhecidas foram apontadas pelo historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo em obras como Locuções tradicionais no Brasil (1970) e Dicionário do folclore brasileiro (1954).