The Summer Hunter, o lado solar da vida

“Eu sou mais eu”

Até onde dá pra respeitar os próprios limites e se priorizar sem virar alguém desagradável ou egoísta?

Adriana Setti

Olhar pra dentro nunca foi tão popular. Hoje, temas como impor limites e se priorizar estão presentes em best-sellers, podcasts e nas redes sociais — inclusive aqui, no The Summer Hunter.

Mas será que, ao colocar sempre a nossa qualidade de vida em primeiro lugar, não estamos esquecendo que também temos responsabilidade pelo bem-estar do outro?

Reflexo do nosso tempo

Best-sellers costumam espelhar crises coletivas. Nos anos 1930, em meio à Grande Depressão, Dale Carnegie ensinava a “fazer amigos e influenciar pessoas”. Hoje, depois de uma pandemia, guerras e instabilidades políticas, os títulos que mais vendem falam sobre proteger a própria paz, cortar relações tóxicas e assumir a própria vontade. Não é difícil entender: se não controlamos o mundo lá fora, pelo menos tentamos arrumar o que acontece aqui dentro.

De fato, o conselho predominante em 2025 parece ser este: está tudo bem ser um pouco egoísta. […] O gênero de autoajuda determinou que a resposta do momento é colocar seus interesses em primeiro lugar, sem pedir desculpas, e agir com audácia.

Fonte: trecho da matéria “Is Today’s Self-Help Teaching Everyone to Be a Jerk?”, do The New York Times

Frases que se repetem por aí
“Proteja sua paz.”
“Aprenda a dizer não.”
“Corte quem não faz bem pra você.”
“Priorize-se sempre.”
“Você não precisa agradar todo mundo.”

A psicologia lembra: não somos responsáveis por tudo que o outro sente, mas nossas atitudes afetam quem está ao redor.

Olhar pra fora também importa

É claro que abrir mão de tudo em nome do outro pode gerar frustração e desgaste. Mas pequenos gestos — dar bom dia, ouvir um amigo em crise, segurar a barra de alguém sobrecarregado — mostram conexão. O equilíbrio está em perceber que a convivência envolve negociação: ceder um pouco, insistir em outro ponto. Relações saudáveis se constroem nessa balança.

“Agradar o outro faz parte, mas é importante haver uma intenção, pra que seja uma escolha, e não por obrigação, porque aí surge o vazio que leva à angústia.”

Isadora Garaventa, antropóloga, psicanalista e pós-graduanda em psiquiatria, no episódio “A coragem de não agradar”, do podcast The Summer Hunter Vozes

Entre o sim e o não

Respeitar os próprios limites é essencial, mas ignorar completamente o outro também fragiliza os laços. Antes de recusar um convite, vale pensar no significado que aquele encontro tem pra quem chamou. Uma carona, um favor no trabalho, um programa que não era sua primeira escolha — tudo isso pode se transformar em pequenos gestos de cuidado que facilitam a vida em comunidade.