Eu! Eu! Eu! Eu!
Sabe quando alguém consegue trazer qualquer assunto pra si? Tem até nome pra isso: narcisismo conversacional.
Manuela Stelzer
O papo pode ser sobre a guerra no Irã, uma receita de frango a passarinho ou o filme que acabou de estrear… tem gente capaz de sequestrar a conversa mais trágica, aleatória ou íntima pra contar uma história pessoal ou registrar sua opinião.
Junto com a jornalista e física Rosana Hermann, a gente se debruça nas raízes desse padrão, que é mais antigo do que as redes sociais fazem parecer.
Nar•ci•sis•mo con•ver•sa•cio•nal
A internet ainda era uma rede de comunicação militar quando o sociólogo norte-americano Charles Derber cunhou esse termo. Em 1979, no livro The pursuit of attention (“A busca pela atenção”, em tradução livre), ele nomeou o comportamento de quem está sempre disputando atenção — até nas conversas mais cotidianas.
“Não precisa ser agressivo nem consciente, mas algo feito sistematicamente: a pessoa acha um link com o papo que está rolando, ignora o que foi dito e passa a falar sobre ela. Eu fico indignada com quem sequestra a pauta o tempo inteiro. Mas Charles Derber explica que, às vezes, é cultural: existem lugares onde todo mundo faz isso.”
Rosana Hermann, jornalista e física

“Graças às redes sociais — que nos incentivam a compartilhar opiniões e se expor —, nunca na história da humanidade falamos tanto e ouvimos tão pouco. ‘Vender-se’ no LinkedIn ou retratar uma vida supostamente emocionante e glamorosa no Instagram virou algo natural.”
Trecho da reportagem “Me! Me! Me! The unstoppable rise of the conversational narcissist”, do The Telegraph


A gente não sabe mais conversar?
O excesso de estímulos deixa nosso cérebro cada vez mais disperso, afetando também a escuta. Em vez de realmente ouvir, prestamos atenção apenas o suficiente pra responder — e, muitas vezes, trazer o assunto de volta pra nós.
“Gosto de pensar em uma conversa saudável como um jogo em que você joga a bola, a outra pessoa pega, segura e joga de volta. Com o narcisismo conversacional, o outro pega a bola e simplesmente sai correndo com ela. É um diálogo que se transforma em um monólogo.”
Sue Varma, professora assistente de psiquiatria na NYU Grossman School of Medicine, nos Estados Unidos, em entrevista ao HuffPost
