Estamos viciados em tampões de ouvido?
Em festivais, viagens de avião ou embaixo dos lençóis: pra cada vez mais gente, a felicidade se mede em (poucos) decibéis.
Manuela Stelzer
Um café movimentado pode gerar 90 decibéis, um show ou uma festa, 115, e uma avenida no horário de pico, 95. Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um limite de exposição a 100 decibéis, por não mais do que 15 minutos.
Em meio a tanto barulho, os tampões de ouvido se converteram na única forma possível de silêncio.

“Barulho adoece”
Essa constatação foi feita por Jördis Wothge, psicóloga da OMS, em 2018. Os efeitos são fisiológicos: quando estamos rodeados de muito estímulo auditivo, nosso corpo fica em constante estado de alerta. Em excesso, ruídos aumentam a propensão de doenças do coração, pressão alta e transtornos psíquicos.

Silêncio pandêmico
Durante a pandemia, nos espantamos (e nos maravilhamos) com a redução de ruídos. Aviões no solo, ruas vazias, obras paradas. Dava até pra ouvir a cantoria dos pássaros em São Paulo, onde o barulho chegou a cair 50% em alguns pontos, segundo medição da associação ProAcústica.


Vieram pra ficar
De silicone, de espuma, customizáveis, em formato parafuso: os protetores auriculares viraram parte da rotina de muita gente nos últimos anos. Nesse mercado em expansão, a marca Loop Earplugs fez barulho: chegou em 2016 e, em poucos anos, triplicou sua receita, chegando a € 126 milhões.
Fonte: “Earplugs as fashion items? I gave Loop’s hit accessories a festival test” (The Guardian)

Noise-cancelling: salvação ou perigo?
O mercado da tecnologia de cancelamento ativo de ruído está estimado em US$ 4,5 bilhões em 2024 e deve atingir US$ 12,5 bilhões até 2033, segundo o relatório “Active Noise Cancellation Technology Market Insights” (VMR). Assim como os tampões, os fones com noise-cancelling podem evitar que ruídos de alta frequência danifiquem os ouvidos. Porém, alguns audiologistas apontam esses equipamentos como possíveis responsáveis por problemas auditivos contemporâneos.
“O cérebro está acostumado a lidar com milhares de sons diferentes ao mesmo tempo e sempre conseguiu identificar o que vale a pena ouvir. Com o cancelamento de ruído, você fornece apenas uma fonte de som, e não há mais nada com que ele precise se preocupar.”
Renee Almeida, do departamento de audiologia do Imperial College Healthcare NHS Trust, no Reino Unido, em entrevista à BBC News

O que não queremos ouvir?
Mais do que uma busca pelo conforto, a avidez por bloquear os ruídos ao nosso redor diz muito sobre o nosso tempo: temos cada vez menos disposição pra escutar aquilo que não escolhemos. O silêncio é necessário? Sim. Mas vale lembrar: alguns sons merecem ser ouvidos.