The Summer Hunter, o lado solar da vida

Estamos viciados em tampões de ouvido?

Em festivais, viagens de avião ou embaixo dos lençóis: pra cada vez mais gente, a felicidade se mede em (poucos) decibéis.

Manuela Stelzer

Um café movimentado pode gerar 90 decibéis, um show ou uma festa, 115, e uma avenida no horário de pico, 95. Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um limite de exposição a 100 decibéis, por não mais do que 15 minutos. 

Em meio a tanto barulho, os tampões de ouvido se converteram na única forma possível de silêncio. 

foto: aliaksei lepik / unsplash

“Barulho adoece”

Essa constatação foi feita por Jördis Wothge, psicóloga da OMS, em 2018. Os efeitos são fisiológicos: quando estamos rodeados de muito estímulo auditivo, nosso corpo fica em constante estado de alerta. Em excesso, ruídos aumentam a propensão de doenças do coração, pressão alta e transtornos psíquicos.

Sinfonia urbana
trânsito
bate-estaca
festivais de música
helicópteros
aviões 
metrô
bares
manifestações
torcida de futebol
cachorrada latindo
polícia
ambulância
bombeiros
alarmes
caminhão dando ré
pamonhas, pamonhas, pamonhas

Silêncio pandêmico

Durante a pandemia, nos espantamos (e nos maravilhamos) com a redução de ruídos. Aviões no solo, ruas vazias, obras paradas. Dava até pra ouvir a cantoria dos pássaros em São Paulo, onde o barulho chegou a cair 50% em alguns pontos, segundo medição da associação ProAcústica. 

À medida que as restrições do isolamento social ficaram no passado, a utopia do silêncio recaiu sobre os tampões de ouvido.

Vieram pra ficar

De silicone, de espuma, customizáveis, em formato parafuso: os protetores auriculares viraram parte da rotina de muita gente nos últimos anos. Nesse mercado em expansão, a marca Loop Earplugs fez barulho: chegou em 2016 e, em poucos anos, triplicou sua receita, chegando a € 126 milhões.

Fonte: “Earplugs as fashion items? I gave Loop’s hit accessories a festival test” (The Guardian)

Alguns prometem filtrar certos ruídos, dando maior conforto sonoro, mas sem impedir a audição. Nos festivais, a ideia é “isolar” o som da música, permitindo ouvir com mais foco e riqueza de detalhes. Não à toa, a marca Alpine se uniu aos eventos Elrow, All Points East e BST Hyde Park, na Inglaterra.

Noise-cancelling: salvação ou perigo?

O mercado da tecnologia de cancelamento ativo de ruído está estimado em US$ 4,5 bilhões em 2024 e deve atingir US$ 12,5 bilhões até 2033, segundo o relatório “Active Noise Cancellation Technology Market Insights” (VMR). Assim como os tampões, os fones com noise-cancelling podem evitar que ruídos de alta frequência danifiquem os ouvidos. Porém, alguns audiologistas apontam esses equipamentos como possíveis responsáveis por problemas auditivos contemporâneos.

“O cérebro está acostumado a lidar com milhares de sons diferentes ao mesmo tempo e sempre conseguiu identificar o que vale a pena ouvir. Com o cancelamento de ruído, você fornece apenas uma fonte de som, e não há mais nada com que ele precise se preocupar.”

Renee Almeida, do departamento de audiologia do Imperial College Healthcare NHS Trust, no Reino Unido, em entrevista à BBC News

O que não queremos ouvir?

Mais do que uma busca pelo conforto, a avidez por bloquear os ruídos ao nosso redor diz muito sobre o nosso tempo: temos cada vez menos disposição pra escutar aquilo que não escolhemos. O silêncio é necessário? Sim. Mas vale lembrar: alguns sons merecem ser ouvidos.