De outros Carnavais
Entre blocos clássicos e novos, fantasias improvisadas ou elaboradas e corpos em movimento, o Carnaval revela, à sua maneira, diferentes cenários e comportamentos da vida brasileira.
Manuela Stelzer
No Brasil, Carnaval é sinônimo de rua — praça cheia, avenida tomada, cidade vivida do lado de fora. Essa ocupação, que hoje parece natural, segue sendo construída com a resiliência de quem faz e vive a festa.

Folião desde a infância, o fotógrafo carioca Lucas Bori acompanhou o Carnaval a partir do seu ressurgimento no pós-ditadura. Desfiles que traziam carros de som, sambas-enredo anuais e críticas bem-humoradas ao cotidiano brasileiro. Ao longo do tempo, testemunhou o empenho de novos coletivos que surgiram na virada do século e que, com um trabalho precioso de pesquisa, resgataram marchinhas, fantasias e adereços, desfilando a pé pelas ruas.

O cenário atual, com uma quantidade de blocos inimaginável há 20 anos, oferece espaço pra todos. “É cultura explodindo em alegria: uma celebração que nasceu pagã, foi absorvida pelo catolicismo e hoje é identidade nacional”, resume Lucas.


Fascinado pelo Carnaval, o fotógrafo iniciou, em 2015, uma série que já dura 11 anos. Munido de uma câmera que lhe garante leveza e liberdade, busca documentar a folia de forma não intimidadora e “proporcionar ao espectador uma experiência que conta a história da festa de dentro para fora”.

Entre blocos clássicos acompanhados ano após ano, como o Cordão do Boitatá, o Céu na Terra e o Prata Preta, e projetos pontuais como o bloco A Vida Presta, surgido no clima de expectativa pela indicação do filme “Ainda Estou Aqui” ao Oscar, Lucas segue inspirado pelo “grande laboratório urbano” que é essa manifestação popular.

Pra ele, o Carnaval é, sobretudo, uma questão de resistência cultural. “É maravilhoso tentar contar um pouco dessa história plural e gigante, que veio dos entrudos portugueses e evoluiu pra cordões, ranchos e escolas de samba — som que se consolidou como identidade da festa e se desdobra nos muitos ritmos de hoje. Sou completamente apaixonado.”

Sobre o autor
Lucas Bori atua como fotógrafo profissional desde 2005. Além de colaborações com marcas, dedica-se há mais de uma década a documentar o Rio de Janeiro, com foco na investigação sociocultural do carnaval de rua, trabalho que já integrou exposições em São Paulo, Rio e Osaka, no Japão.