The Summer Hunter, o lado solar da vida

Como lidar com a culpa de morar fora

Viver longe da família é libertador, mas também uma aventura repleta de expectativas (suas e dos outros) e sentimentos conflitivos.

Adriana Setti

A culpa nasce, em grande parte, do choque entre quem acreditamos ser e quem achamos que deveríamos ser. No processo migratório, essa tensão se multiplica. Mudamos de país, mas também mudamos internamente — e isso faz com que papéis, expectativas e identidades se embaralhem.

A partir de uma entrevista com a psicóloga Nati Dalpiaz, a gente fala sobre como lidar com essa avalanche de sentimentos, sem precisar abrir mão do caminho que escolheu.

As três dimensões da culpa no contexto migratório
 
Culpa psicológica
É o autojulgamento que nasce quando nossas escolhas confrontam a imagem interna que construímos de nós mesmos.
 
Culpa relacional
Está ligada ao vínculo com o outro e ao sentimento de pertencimento. Aparece quando sentimos que nossas decisões — como migrar — impactam as expectativas afetivas de quem amamos.
 
Culpa cultural
Reflete normas e valores que aprendemos ser “certos” no nosso contexto social.

“A culpa é potencializada pelo atravessamento cultural de uma sociedade coletivista (como a brasileira), que reforça a lealdade e os deveres familiares ou comunitários — fazendo com que a escolha de mudar de país soe egoísta se não for pensada como algo que beneficia outras pessoas além do indivíduo em questão.”

Nati Dalpiaz, fundadora da Prô Mundo Psicologia, empresa especializada em cuidar da saúde mental de brasileiros que vivem no exterior

Mesmo que a pessoa tenha uma família e uma rede que incentivem o movimento realizado, a culpa pode aparecer, afinal, as expectativas do outro e da sociedade continuam dentro de si. O aval de quem fica ajuda a equilibrar um pouco as coisas, enquanto cobranças ou comentários alheios acabam intensificando esse peso emocional.

Quando alguém sai pro mundo, precisa aceitar que haverá a necessidade de uma adaptação nas relações.
Estratégias emocionais pra lidar com a distância:
Ressignificar a presença: criar novos rituais de cuidado e conexão.
Conversar sobre antes, durante e depois da mudança.
Estabelecer uma frequência de contato que caiba na nova vida.
Praticar comunicação bilateral.
Reconhecer que alguns laços mudam — e tudo bem.

Se o outro se importa e deseja continuar fazendo parte da sua vida, vai se esforçar — à sua maneira e no seu ritmo — pra adaptar essa relação junto com você.

“A vida no novo país traz novas experiências que transformam o modo como a pessoa se relaciona com quem ficou. A manutenção desses laços pode se tornar exigente, especialmente quando há pouca empatia dos que permaneceram, que nem sempre compreendem as dificuldades, os dilemas e o cansaço emocional de quem está se adaptando a uma nova fase da vida.”

Nati Dalpiaz, fundadora da Prô Mundo Psicologia, empresa especializada em cuidar da saúde mental de brasileiros que vivem no exterior

Às vezes não rola (ufa)

Se a família ou as relações forem disfuncionais, pode ser inviável (e indesejado) manter os laços. Quando isso acontece, a jornada se torna muito mais autônoma, tanto na forma de lidar com o sentimento de estar ausente ou ser negligente quanto na maneira de manter e redefinir vínculos. A distância, nesses contextos, pode inclusive ser terapêutica.

Uma das maiores dores de viver em outro país é a perda do cotidiano compartilhado: das datas simples, do estar por perto nas pequenas coisas. 
 
Por isso, conversar sobre a distância exige cuidado, paciência e clareza.
Não se trata de convencer ou justificar a decisão, mas de acolher o medo do outro sem anular a própria escolha.