Como lidar com a culpa de morar fora
Viver longe da família é libertador, mas também uma aventura repleta de expectativas (suas e dos outros) e sentimentos conflitivos.
Adriana Setti
A culpa nasce, em grande parte, do choque entre quem acreditamos ser e quem achamos que deveríamos ser. No processo migratório, essa tensão se multiplica. Mudamos de país, mas também mudamos internamente — e isso faz com que papéis, expectativas e identidades se embaralhem.
A partir de uma entrevista com a psicóloga Nati Dalpiaz, a gente fala sobre como lidar com essa avalanche de sentimentos, sem precisar abrir mão do caminho que escolheu.

“A culpa é potencializada pelo atravessamento cultural de uma sociedade coletivista (como a brasileira), que reforça a lealdade e os deveres familiares ou comunitários — fazendo com que a escolha de mudar de país soe egoísta se não for pensada como algo que beneficia outras pessoas além do indivíduo em questão.”
Nati Dalpiaz, fundadora da Prô Mundo Psicologia, empresa especializada em cuidar da saúde mental de brasileiros que vivem no exterior
Mesmo que a pessoa tenha uma família e uma rede que incentivem o movimento realizado, a culpa pode aparecer, afinal, as expectativas do outro e da sociedade continuam dentro de si. O aval de quem fica ajuda a equilibrar um pouco as coisas, enquanto cobranças ou comentários alheios acabam intensificando esse peso emocional.


Se o outro se importa e deseja continuar fazendo parte da sua vida, vai se esforçar — à sua maneira e no seu ritmo — pra adaptar essa relação junto com você.
“A vida no novo país traz novas experiências que transformam o modo como a pessoa se relaciona com quem ficou. A manutenção desses laços pode se tornar exigente, especialmente quando há pouca empatia dos que permaneceram, que nem sempre compreendem as dificuldades, os dilemas e o cansaço emocional de quem está se adaptando a uma nova fase da vida.”
Nati Dalpiaz, fundadora da Prô Mundo Psicologia, empresa especializada em cuidar da saúde mental de brasileiros que vivem no exterior
Às vezes não rola (ufa)
Se a família ou as relações forem disfuncionais, pode ser inviável (e indesejado) manter os laços. Quando isso acontece, a jornada se torna muito mais autônoma, tanto na forma de lidar com o sentimento de estar ausente ou ser negligente quanto na maneira de manter e redefinir vínculos. A distância, nesses contextos, pode inclusive ser terapêutica.

