The Summer Hunter, o lado solar da vida

Brazilian Crime Story

A gente ama — mesmo sabendo que talvez não devesse — um bom true crime à brasileira.

Manuela Stelzer

Tremembé mal chegou ao streaming e já se tornou a série mais assistida da história da Prime Video no Brasil. 

Não é pra menos: além do apelo do true crime, o enredo dramatiza a vida de criminosos que são muito famosos por aqui. 

E, embora a junção de crime e fama possa parecer estranha, é justamente nela que mora parte do nosso fascínio, ainda mais quando tudo acontece em solo nacional.

Brasil em alerta
Nossa obsessão com tragédias é notícia velha. Desde a década de 1960, com Jacinto Figueira Jr., mais conhecido como o Homem do Sapato Branco, programas policiais sensacionalistas já eram um sucesso. Até hoje, eles denunciam crimes violentos e atuam na fronteira entre reportagem e espetáculo.
Linha Direta, Cidade Alerta e Brasil Urgente são outros exemplos de conteúdos de true crime que antecederam o streaming — na TV aberta, sem filtros e carregados de complexidades da vida real.

Os números

→ As séries documentais cresceram 63% entre 2018 e 2021, sendo o true crime o maior subgênero da categoria.

→ Em 2023, o Brasil correspondeu por metade de toda a demanda por histórias de crimes reais na América Latina.

Fonte: relatório da Parrot Analytics

O presídio das celebridades

Tremembé escolheu como cenário a prisão que confinou — e ainda confina — alguns dos criminosos mais midiáticos do país, como Elize Matsunaga, Suzane von Richthofen, Ana Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni. Gente cujo rosto, história e julgamento o público acompanhou quase como novela.  

O fascínio por Tremembé
. O crime vira narrativa.
. É a fusão perfeita entre curiosidade jornalística e entretenimento.
. A vontade de entender as motivações de pessoas capazes de cometer atos tão cruéis e violentos.
. O velho impulso de espiar a punição, ver a justiça sendo feita.

“O maior motivo que leva as pessoas a consumirem esse tipo de conteúdo é tentar entender a mente dos criminosos, a psicologia do que leva alguém a cometer um crime, o que é o bem e o mal.”

André Rizzi, psicólogo e pesquisador da USP em entrevista à Exame

É tudo nosso

Diferente das produções americanas, que acompanham serial killers e tramas mais distantes da realidade brasileira, Tremembé trata de figuras que a gente conhece bem. São casos absurdos, sim, mas que cresceram junto da nossa memória coletiva, contados na nossa linguagem e com as nossas referências culturais.

True crime BR
. A vítima invisível: o caso Eliza Samudio (Netflix)
. Maníaco do parque (Prime)
. Elize Matsunaga: era uma vez um crime (Netflix)
. A menina que matou os pais (Prime)
. Ângela Diniz: assassinada e condenada (HBO)
. O caso Evandro (Globoplay)
. Em nome de Deus (Globoplay)

Mas pera lá

O sucesso dessas produções vem com um risco: dependendo da narrativa, o crime pode virar fetiche, e o criminoso, ícone. Não à toa, muitos serial killers ganham fã-clubes depois de presos. 

Tudo bem assistir — desde que a gente não se esqueça que existem vítimas reais e consequências que não cabem em um roteiro.

“Por um lado, [o true crime] permite dialogar melhor com essas pessoas. Por outro, pode acontecer a normalização. Temos que tomar cuidado. […] À medida que essas séries mostram o dia a dia dos personagens, a gente vai humanizando essas questões. Deixamos de ver a gravidade dos crimes.”

Fabrício Lemos Guimarães, professor da UnB, doutor em psicologia e pós-graduado em Impactos da Violência na Saúde em entrevista ao Correio Braziliense