Brazilian Crime Story
A gente ama — mesmo sabendo que talvez não devesse — um bom true crime à brasileira.
Manuela Stelzer
Tremembé mal chegou ao streaming e já se tornou a série mais assistida da história da Prime Video no Brasil.
Não é pra menos: além do apelo do true crime, o enredo dramatiza a vida de criminosos que são muito famosos por aqui.
E, embora a junção de crime e fama possa parecer estranha, é justamente nela que mora parte do nosso fascínio, ainda mais quando tudo acontece em solo nacional.


Os números
→ As séries documentais cresceram 63% entre 2018 e 2021, sendo o true crime o maior subgênero da categoria.
→ Em 2023, o Brasil correspondeu por metade de toda a demanda por histórias de crimes reais na América Latina.
Fonte: relatório da Parrot Analytics
O presídio das celebridades
Tremembé escolheu como cenário a prisão que confinou — e ainda confina — alguns dos criminosos mais midiáticos do país, como Elize Matsunaga, Suzane von Richthofen, Ana Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni. Gente cujo rosto, história e julgamento o público acompanhou quase como novela.

“O maior motivo que leva as pessoas a consumirem esse tipo de conteúdo é tentar entender a mente dos criminosos, a psicologia do que leva alguém a cometer um crime, o que é o bem e o mal.”
André Rizzi, psicólogo e pesquisador da USP em entrevista à Exame
É tudo nosso
Diferente das produções americanas, que acompanham serial killers e tramas mais distantes da realidade brasileira, Tremembé trata de figuras que a gente conhece bem. São casos absurdos, sim, mas que cresceram junto da nossa memória coletiva, contados na nossa linguagem e com as nossas referências culturais.

Mas pera lá
O sucesso dessas produções vem com um risco: dependendo da narrativa, o crime pode virar fetiche, e o criminoso, ícone. Não à toa, muitos serial killers ganham fã-clubes depois de presos.
Tudo bem assistir — desde que a gente não se esqueça que existem vítimas reais e consequências que não cabem em um roteiro.
“Por um lado, [o true crime] permite dialogar melhor com essas pessoas. Por outro, pode acontecer a normalização. Temos que tomar cuidado. […] À medida que essas séries mostram o dia a dia dos personagens, a gente vai humanizando essas questões. Deixamos de ver a gravidade dos crimes.”
Fabrício Lemos Guimarães, professor da UnB, doutor em psicologia e pós-graduado em Impactos da Violência na Saúde em entrevista ao Correio Braziliense