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O Brasil deve muito aos catadores e catadoras de materiais recicláveis

Verdadeiros heróis contemporâneos, eles merecem reconhecimento e melhores condições de trabalho.

Adriana Setti

As pessoas que recolhem materiais recicláveis são responsáveis por cerca de 90% de toda a reciclagem que acontece no Brasil, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Junto com Kananda Eller, química e mestra em Ensino de Ciências Ambientais pela USP, a gente explica por que esses trabalhadores exercem um papel central na gestão de resíduos sólidos.

Um papel fundamental

Sem o trabalho dos catadores e catadoras, o Brasil não teria condições de atingir as metas previstas na Política Nacional de Resíduos Sólidos. Ainda assim, esse serviço essencial não é formalmente reconhecido na mesma proporção que sua importância ambiental, reduzindo a pressão sobre aterros sanitários e contribuindo pra economia circular.

Pra resumir: não há reciclagem no Brasil sem catador.

Uma questão urgente

Os catadores estão na base da pirâmide dos resíduos sólidos, realizando coleta, separação e triagem em condições precárias. Sem proteção adequada e dependentes de atravessadores e indústrias, tornam-se a parte mais vulnerável da cadeia. Enquanto alguns estão organizados em cooperativas, muitos atuam de forma individual ou em situação de rua, tendo na catação uma estratégia de sobrevivência.

Se a sociedade não aceita que um médico trabalhe sem equipamentos de proteção, por que naturaliza que os catadores trabalhem desprotegidos?

Retrato da desigualdade

Não é coincidência que a maioria dos catadores são mulheres, negras, periféricas e pobres, enfrentando condições de insalubridade e insegurança. O nome disso é racismo ambiental, que historicamente associa pessoas negras, indígenas e marginalizadas a injustiças sociais e ambientais, além de trabalhos subalternizados e de menor valor.

foto: krizjohn rosales / pexels

Suco de precariedade:

·  Muitos não possuem documentação básica, como RG e CPF, o que os torna invisíveis às políticas públicas e programas sociais.

·  Os catadores e as catadoras recebem, em média, menos de um salário mínimo.

·  A maioria não tem carteira assinada.

·  A baixa renda tem uma relação direta com o trabalho infantil e a falta de escolarização das crianças dessas famílias.

foto: nick fewings / unsplash

Cobertura estigmatizada

A mídia desempenha um papel central na construção de narrativas sobre catadores de materiais recicláveis, mas frequentemente os associa à pobreza, sujeira e precariedade, reforçando estigmas que desvalorizam seu trabalho e invisibilizam sua relevância socioambiental.