The Summer Hunter, o lado solar da vida

Artista cega constrói casa sob rodas com as próprias mãos

“Muito antes de cruzarmos as fronteiras como migrantes, imigrantes, escravos ou refugiados, nós éramos nômades. Vivíamos a vida de passagem, como fazem os pássaros, mudando a direção segundo manda a Mãe Terra e suas quatro estações. Cruzamos barreiras inimagináveis em busca de um lugar para um descanso prolongado, mas sempre soubemos, em nosso íntimo, que… Ver artigo

Eloa Orazem

“Muito antes de cruzarmos as fronteiras como migrantes, imigrantes, escravos ou refugiados, nós éramos nômades. Vivíamos a vida de passagem, como fazem os pássaros, mudando a direção segundo manda a Mãe Terra e suas quatro estações. Cruzamos barreiras inimagináveis em busca de um lugar para um descanso prolongado, mas sempre soubemos, em nosso íntimo, que a Terra é o nosso lar.”

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Fotos: Stephanie Case

Assim começa o manifesto escrito (e vivido) pela artista afro-americana Dominique Moody, de 58 anos, que fez da mudança parte de sua obra. “Já troquei de endereço 45 vezes, a maioria das vezes foi por querer, e isso gerou em mim uma enorme sensação de liberdade”, explica.

Entres idas e vindas, Dominique passou a se reconhecer e se encontrar apenas nas mudanças, então decidiu fazer sua morada na própria estrada. O sonho começou 25 anos atrás, o planejamento há sete e a construção há três, e agora finalmente podemos ver o resultado: “Nomad” é uma pequena casa sob rodas, toda feita a partir de materiais descartados e recicláveis, e integralmente construída pela artista.

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Desde que abriu as portas de seu lar ao público, Dominique tem chamado muita atenção, sobretudo porque é deficiente visual. A pouca visão periférica que lhe resta é útil aqui e acolá, mas perante o estado e a sociedade, a artista é legalmente cega.

Quando a encontrei, numa tarde de domingo, Dominique estava nitidamente exausta. Com o corpo franzino repousando em sua cadeira, explicava que há quatro dias consecutivos vem dando entrevistas e conversando com o público em geral por cerca de 12 horas diárias, levando suas cordas vocais a um colapso.

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Num último esforço de me contar mais sobre o projeto, a americana sussurra suas experiências na área de design de interiores, mas se mostra surpresa com tamanha comoção: “já fui convidada a expor o projeto nas Bahamas e no Havaí”, revela, no derradeiro fôlego do dia.

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Mesmo sem voz, Dominique abre os braços a quem queira entrar, na esperança de contagiar e dar asas a mais alguém, para que, livre, possa voar não seguindo as estações, mas os próprios anseios.