The Summer Hunter, o lado solar da vida

Qual a pira da literatura japonesa com gatos?

Eles estão em capas de livros, são protagonistas de ficções virais e movimentam não só o mercado editorial, como também trilhões de ienes na economia do país.

Manuela Stelzer

Assim como nossos vira-latas caramelos, no Japão os gatos são um símbolo nacional: de amuleto da sorte a protagonistas literários, são figuras respeitadas há séculos e, hoje, consideradas por muitos japoneses parte essencial do núcleo (bastante reduzido) familiar. 

O que há por trás da presença constante dos gatos na literatura e na cultura nipônica?

Gatos vendem

Eles literalmente movimentam TRILHÕES de ienes: anualmente, um professor da Universidade de Kansai avalia o impacto dos felinos na economia do país. Pra 2025, estimou quase ¥3 trilhões (US$ 19,6 bilhões). Os gatos movimentam mais que o dobro da renda gerada pelos milhões de turistas atrás da temporada das cerejeiras no Japão.

Tudo por um gato:
. Viagens pra ilhas de gatos e passeios em cat cafés.
. 22 de fevereiro: dia nacional dos gatos no Japão.
. Estampam capas de livros e são protagonistas de ficções virais.
. Tama é o nome da gatinha responsável por movimentar uma estação de trem abandonada e reativar negócios no local. Hoje, é um fenômeno no país.

É um caso de amor tão sério que pesquisadores japoneses estão empenhados em alcançar tecnologias que dobrem a expectativa de vida dos bichinhos.

Fonte: “By improving kidney function, can “AIM” double cats’ lifespan?” (Universidade de Tóquio) 

Match universal

Um livro, uma manta nos pés, uma xícara de café e… um gatinho. Esse é o cenário de leitura ideal pra boa parte dos apaixonados por livros (e por felinos). Tal conexão só se intensificou com a boom da chamada “literatura do conforto” ou “ficção de cura”: histórias emocionantes, leves e gostosas de ler, que funcionam como válvulas de escape da realidade turbulenta.

Não à toa, boa parte dos títulos desse gênero vem de autores japoneses, se passa em livrarias ou bibliotecas e tem gatos como personagens.

A relação é antiguíssima

Desde 2017, há mais gatos que cães no Japão. Mas a paixão vem de antes: um dos plot twists mais importantes de Narrativas de Genji, clássico da literatura nipônica escrito por Murasaki Shikibu no século 11, acontece graças a um GATO.

Outros clássicos:
. Em O livro do travesseiro, de Sei Shônagon, também do século 11, consta o primeiro registo de nome de gato do Japão: 命婦の御許, ou Myôbuno Otodo, uma felina da realeza cujos desejos importam mais que os dos humanos.
. Eu sou um gato, de Natsume Soseki, marca uma virada na forma como os japoneses veem os gatos: aqui, eles viram protagonistas, mas não mais antropomorfizados ou espiritualizados — são apenas gatos que observam e criticam, com bastante sarcasmo, a sociedade.
O autor Jirō Osaragi, além de ter escrito sobre os felinos, como no ensaio O gato silencioso, dos anos 1930, também foi tutor de mais de 500 gatos ao longo da vida — imagina a quantidade de bolas de pelo pela casa.

“A relação dos japoneses com os gatos reflete as transformações do país: uma sociedade envelhecida, mais solitária, com 35% dos domicílios compostos por uma única pessoa. Com a literatura do conforto, o gato ocupa o lugar do pet fofo, calmo e fácil de cuidar.”

Anna Ligia Pozzetti, tradutora e intérprete de japonês, mestre em história econômica pela Unicamp e criadora de conteúdo sobre cultura japonesa

Mais livros com gatos — na capa ou no enredo:
. Se os gatos desaparecessem do mundo, Genki Kawamura
. O gato que amava livros, Sōsuke Natsukawa
. Vou te receitar um gato, Syou Ishida
. Relatos de um gato viajante, Hiro Arikawa