Qual a pira da literatura japonesa com gatos?
Eles estão em capas de livros, são protagonistas de ficções virais e movimentam não só o mercado editorial, como também trilhões de ienes na economia do país.
Manuela Stelzer
Assim como nossos vira-latas caramelos, no Japão os gatos são um símbolo nacional: de amuleto da sorte a protagonistas literários, são figuras respeitadas há séculos e, hoje, consideradas por muitos japoneses parte essencial do núcleo (bastante reduzido) familiar.
O que há por trás da presença constante dos gatos na literatura e na cultura nipônica?
Gatos vendem
Eles literalmente movimentam TRILHÕES de ienes: anualmente, um professor da Universidade de Kansai avalia o impacto dos felinos na economia do país. Pra 2025, estimou quase ¥3 trilhões (US$ 19,6 bilhões). Os gatos movimentam mais que o dobro da renda gerada pelos milhões de turistas atrás da temporada das cerejeiras no Japão.


É um caso de amor tão sério que pesquisadores japoneses estão empenhados em alcançar tecnologias que dobrem a expectativa de vida dos bichinhos.
Fonte: “By improving kidney function, can “AIM” double cats’ lifespan?” (Universidade de Tóquio)
Match universal
Um livro, uma manta nos pés, uma xícara de café e… um gatinho. Esse é o cenário de leitura ideal pra boa parte dos apaixonados por livros (e por felinos). Tal conexão só se intensificou com a boom da chamada “literatura do conforto” ou “ficção de cura”: histórias emocionantes, leves e gostosas de ler, que funcionam como válvulas de escape da realidade turbulenta.

A relação é antiguíssima
Desde 2017, há mais gatos que cães no Japão. Mas a paixão vem de antes: um dos plot twists mais importantes de Narrativas de Genji, clássico da literatura nipônica escrito por Murasaki Shikibu no século 11, acontece graças a um GATO.


“A relação dos japoneses com os gatos reflete as transformações do país: uma sociedade envelhecida, mais solitária, com 35% dos domicílios compostos por uma única pessoa. Com a literatura do conforto, o gato ocupa o lugar do pet fofo, calmo e fácil de cuidar.”
Anna Ligia Pozzetti, tradutora e intérprete de japonês, mestre em história econômica pela Unicamp e criadora de conteúdo sobre cultura japonesa
