A nova cara da fé
A ideia do que é ser uma pessoa religiosa — e, especialmente, evangélica — vem mudando nos últimos anos. Como essa transformação aparece na cultura e no consumo?
Dandara Fonseca
Igrejas aesthetic, com pastor tatuado e que usa boné; influenciadores, jogadores de futebol e outras personalidades da mídia reforçando a todo momento a sua fé; festival de trap gospel…
Os limites entre o que é “sagrado” e “profano” nunca estiveram tão difusos. No novo episódio do The Summer Hunter Vozes, gravado na Soho House São Paulo, Jess Castro e Kika Brandão, da Estúdio Eixo, consultoria especialista em cultura e comportamento que acaba de lançar um estudo sobre as transformações culturais do Brasil evangélico, refletem sobre o assunto.
A fé sempre fez parte da nossa identidade. Do sincretismo a um vocabulário cheio de termos religiosos, o Brasil tem uma relação íntima com o sagrado. Não à toa, estamos no topo do ranking de países onde mais se acredita em Deus, realizado pela Ipsos em 2023.

Crescimento evangélico no Brasil
Em 2010, os evangélicos representavam 21,6% da população. Em 2022, 26,9% — ou seja, uma em cada quatro pessoas no país.
Esse crescimento é puxado, principalmente, por mulheres, pessoas pretas e jovens.
Fontes: Censos 2010 e 2022; “Gospel Power: a fé que move cultura, consumo e negócios” (Estúdio Eixo e Zygon)

Cada um com a sua fé
Nos últimos anos, várias correntes da fé evangélica passaram por uma espécie de flexibilização. Cada vez mais, as pessoas montam o próprio “remix espiritual”: misturam referências, adaptam dogmas e escolhem o que faz sentido pra si. O resultado? Vários jeitos diferentes de viver e demonstrar a fé.
“A juventude tem questionado muito essa divisão entre o que é ser ‘santo’ e o que é ser ‘do mundo’. […] Ir à balada, ouvir os gêneros musicais do momento, aderir a modismos. Tudo isso antes era considerado ‘do mundo’. Quando essa fronteira se rompe, e encontra o desejo de influenciar (online e offline), é aí que nasce o Gospel Power.”
Jess Castro, líder de inovação e estratégia no Estúdio Eixo

Levando a palavra
Mas não é só uma questão de estética ou comportamento. Ir à balada, se divertir, postar nas redes — tudo isso também pode ser uma forma de apresentar a fé evangélica pra outros jovens e mostrar que dá pra se aproximar de Deus sem se “afastar do mundo” ou precisar mudar completamente quem você é.
“Se antes a ideia era ‘não vamos nos misturar, vamos nos separar’, agora é ‘vamos influenciar’. E disso vem toda a lógica da influência digital: essa estética gospel que vemos nas redes sociais. […] Tem a pílula do bom dia, o look, as boas práticas. Todos os modos de vida reinterpretados por esses jovens.”
Kika Brandão, CEO do Estúdio Eixo

Como tudo isso influencia a cultura e o consumo?
Ouça o episódio completo do The Summer Hunter Vozes na sua plataforma de áudio preferida.