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A nicotina contra-ataca

Como os sachês venderam a ideia de uma nicotina “mais saudável” pra uma geração que não quer fumar.

Fernanda Nascimento

Vendidos em latinhas coloridas com sabores como menta ou café, os sachês de nicotina não são exatamente novos. Depois dos vapes, eles viraram a maior aposta da indústria pra conquistar um público jovem que não vê mais charme em fumar. 

Capaz de burlar regulações de muitos países, o produto vendido como uma nicotina mais “limpa” expandiu seu mercado e investiu em muita propaganda pra se tornar símbolo de performance, produtividade e, por incrível que pareça, saúde. Aqui, a gente explica essa febre.

Velha guerra, novas armas
Sim, você já viu esse filme. Slogans como “Anytime, Anywhere”, anúncios com influenciadores, embalagens que imitam doces, patrocínio em eventos esportivos e celebridades no tapete vermelho. Primeiro foi o cigarro, depois o vape — já com o discurso da redução de danos — e agora a fórmula se repete com as bolsas de nicotina.

“Uma nova onda de influenciadores de saúde, muitos ligados ao movimento Make America Healthy Again, vem promovendo a nicotina como produto de bem-estar. Pra eles, a substância é mais um item ‘natural’ injustamente demonizado pela comunidade médica, assim como a gordura bovina, os peptídeos ou o leite cru.”

Trecho da matéria “Influencers Are Spinning Nicotine as a ‘Natural’ Health Hack”, do The New York Times

Pra turma da saúde, a nicotina é vendida como forma de prevenir doenças como Alzheimer e Parkinson ou melhorar o desempenho nos esportes — existem até marcas pra atletas. No Vale do Silício, o sachê se espalhou prometendo mais foco e produtividade. Já a machosfera comprou o discurso do “produto dos vencedores”, impulsionado por garotos-propaganda como o podcaster americano Joe Rogan.

O barato que sai caro

Ainda que não haja comprovação de benefícios reais à saúde, a nicotina é capaz de produzir alívio momentâneo e aumenta a liberação de dopamina e outros neurotransmissores ligados ao humor, ao prazer e à cognição. O problema é que o corpo pede mais: a substância é altamente viciante e a abstinência pode começar rápido, com ansiedade, névoa mental e irritação quando o efeito passa.

Raio-x dos sachês
. Liberam nicotina entre a gengiva e o lábio.
. Podem ter sabores doces, frutados, de menta ou alcoólicos.
. Vendidos em latas atraentes com cerca de 15 saquinhos.
. Têm concentrações de nicotina que variam entre 2 mg e 150 mg (uma das versões mais comuns, de 6 mg, equivale à dose absorvida ao fumar um cigarro) 
. São inspirados nos snus, produto oral de tabaco da Escandinávia.
“Sem fumaça, sem tabaco”
Muito usada na promoção dos sachês, a frase sugere menos risco do que entrega. Tabaco é a planta, nicotina é a substância que vicia — e pode vir de suas folhas ou ser sintética. Por mais que a fumaça do cigarro aumente a exposição a tóxicos, não há nada de “limpo” na nicotina: ela altera a frequência cardíaca, eleva a pressão arterial e pode afetar o desenvolvimento cerebral.

Terra sem lei

Assim como foi com os vapes, os sachês conseguem burlar regulações em vários países por não serem enquadrados como produto de tabaco. Isso significa propaganda à vontade, vendas sem restrições e pouca ou nenhuma advertência. No Brasil, por serem considerados “fumígenos”, ainda são proibidos, mas a Anvisa já colocou o assunto na agenda — e médicos alertam pro lobby pesado da indústria.

“A rápida expansão dos sachês de nicotina não é apenas uma tendência de mercado, é um problema de saúde pública com implicações de longo prazo. O uso na juventude aumenta a probabilidade de dependência persistente e transição pra outros produtos de tabaco. Sem supervisão regulatória robusta, a proliferação desses produtos ameaça desfazer décadas de avanço no controle do tabaco.”

Trecho do relatório Exposing marketing tactics and strategies driving the global growth of nicotine pouches, da Organização Mundial da Saúde

Os donos do jogo
A Zyn, líder de mercado e presente em 55 países, é controlada pela Philip Morris International, dona de marcas como o Marlboro. No ano passado, a empresa distribuiu 794 milhões de latas só nos Estados Unidos e registrou um crescimento global de 37%. O discurso oficial gira em torno da redução de danos, mas a própria empresa já trata os sachês como sua principal aposta pro futuro.

Nos Estados Unidos, onde os pouches se espalharam rapidamente e são defendidos até pelo secretário de saúde de Donald Trump, o uso entre jovens quase quadruplicou entre 2022 e 2025. A América do Norte concentra 80% desse mercado, mas ele está se espalhando: em 2024, as vendas globais cresceram 50,5%.

Fonte: Organização Mundial da Saúde

É permitido proibir

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 160 países ainda não têm uma legislação específica e só 16 proíbem a venda, o que permite a rápida expansão. Em um relatório divulgado na semana passada, a agência classificou como preocupante a mira sistemática em adolescentes e jovens e alertou que, sem uma ação coordenada, mais uma geração pode ser empurrada pra dependência.