
A incrível história do cobogó
Inspirado na arquitetura árabe, esse tijolo vazado foi criado em Recife e se tornou um ícone atemporal de brasilidade.
Adriana Setti
A palavra bate gostoso no ouvido e parece brasileiríssima. Mas é, na verdade, resultado da soma das sílabas iniciais dos sobrenomes de seus criadores: o comerciante português Amadeu Oliveira COimbra, seu sócio alemão Ernest August BOeckmann e o engenheiro brasileiro Antônio de GÓis Cavalcanti.
Made in Pernambuco

A ideia era criar um monobloco vazado, que permitisse a iluminação natural e a ventilação dos ambientes — afinal de contas, eles estavam no Recife, onde faz calor 365 por ano. Também era importante que fosse resistente, barato e pudesse ser industrializado.
O cobogó bebeu da fonte do muxarabi, uma espécie de treliça de madeira de origem árabe, aplicada às varandas e janelas pra garantir a passagem do ar e da luz, sem prejudicar a privacidade.

“O elemento vazado permitindo que a superfície do edifício seja perfurada é ancestral e vem de outras regiões de clima quente e ensolarado, como o norte da África e a Península Ibérica. Mas, no contexto pernambucano, ele passa a ter uma outra relevância ao integrar grandes paredes permeáveis, e acaba se tornando esse elemento visual tão característico.”
Cristiano Borba, arquiteto e urbanista da Fundação Joaquim Nabuco, autor do livro Cobogó de Pernambuco, no documentário CO.BO.GÓ. (Rede Globo)
Bonito, funcional e tropical

A partir de 1950, o tijolo vazado é incorporado à arquitetura modernista, em projetos de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, entre outros arquitetos. Brasília se torna sua principal vitrine: quase metade dos edifícios construídos na capital de 1960 a 1979 tem cobogós. Com o tempo, ganha novas formas e se torna um elemento cada vez mais estético e decorativo.
Edifícios icônicos com cobogó



· Prédio da Caixa-d’Água, Luiz Nunes, 1934, Olinda (PE)
· Casa Walter Moreira Salles, Olavo Redig Campos, 1948, Rio de Janeiro (RJ)
· Edifício Eiffel, Oscar Niemeyer e Carlos Lemos, 1956, São Paulo (SP)
· Biblioteca Nacional de Brasília, Oscar Niemeyer, 2008, Brasília (DF)
· Hotel Emiliano, Arthur Casas, 2017, Rio de Janeiro (RJ)
· Centro Cultural Cais do Sertão, Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, 2018, Recife (PE)
De Recife pro mundo


Usado à exaustão, o cobogó chegou a ser considerado cafona nos anos 1980 e ficou em baixa até a virada do milênio. Mas deu a volta definitiva por cima com uma ajudinha dos Irmãos Campana, que incorporaram o elemento à Mesa Cobogó, apresentada no Salão Internacional do Móvel, em Milão, em 2009.
Prestes a completar 100 anos, o cobogó faz todo sentido no momento atual de crise climática, uma vez que permite capturar e resfriar passivamente o vento — ou seja, reduzir a temperatura do ambiente sem uso de energia elétrica ou de combustíveis.
Crédito da imagem de abertura: Divulgação Disfrutar / Francesc Guillaumet