The Summer Hunter, o lado solar da vida

A importância da inteligência relacional

Vivemos hiperconectados — e, paradoxalmente, mais desconectados do que nunca: intimidade em crise, confiança abalada, vínculos superficiais. Como sair dessa?

Adriana Setti

Inteligência relacional é a capacidade de cultivar relações que nos estruturam: ler o outro, sustentar atrito, combinar cuidado e limite.

Não é “soft skill”: é infraestrutura de vida, trabalho e comunidade.

Esse foi o tema da nossa reflexão no primeiro Soho Talks by The Summer Hunter, com Marcella Brito Franco e Luciane Paim, sócias da consultoria ACE. Aqui, trazemos os destaques dessa conversa.

Do QI ao QR: um novo marcador de sucesso
Se a IA ocupa espaço em tudo, o diferencial humano migra pro campo relacional. Quem escuta com qualidade, negocia ambivalências e cria segurança psicológica navega melhor pela complexidade. Pessoas com alto “quociente relacional” (QR) inovam mais, erram sem colapsar e mantêm coesão em momentos difíceis.

 “As big techs querem acabar com o atrito. Até os supermercados querem que a nossa experiência seja sem fricção. Mas atrito é relação! Se a gente passa o tempo inteiro olhando pra uma tela lisa, isso vai nos afastando cada vez mais dos outros. E passamos a ser testemunhas da vida alheia, sem nos relacionarmos.”

Marcella Brito Franco, consultora de design estratégico e pesquisadora

A vida sem atrito das telas:

•⁠ ⁠ Bolhas de iguais diminuem a tolerância à diferença e empobrecem o debate.

•⁠ ⁠ Multiplica “outros” e fragmenta o eu: uma persona no trabalho, outra no feed.

•⁠ ⁠ Troca presença por performance: relação vira vitrine.

•⁠ ⁠ Emoções encapsuladas em emojis reduzem nuance e empatia.

Fonte: Exploding Topics, 2025

Humanos se fazem no olhar do outro

Da psicanálise à sociologia, a formação do eu depende de reconhecimento. Sem bons espelhos — família, amigos, pares — o sujeito se desorganiza. Trocar a presença por validação massiva (likes, views) fragiliza a base. Relações fortes e confiáveis continuam sendo nosso sistema de restauração

Práticas que fortalecem a inteligência relacional:
• Reintroduzir atrito produtivo: conversas difíceis com acordos de respeito.
• Treinar a leitura de sinais sutis: silêncio, microexpressões, ritmo da fala.
• Estabelecer círculos de confiança: pequenos grupos com encontros regulares.
• Definir acordos digitais: limites de tempo/tela e canais pra temas sensíveis.
• Valorizar a convivência analógica: rituais, refeições, projetos em comum.
Ambientes bem desenhados convidam à troca: mesas redondas, tempo sem celular, regras claras de fala, moderação que acolhe conflito.

“Quando tudo é muito polarizado, é como se só houvesse dois jeitos de ser. E isso vai atrofiando a nossa possibilidade de descobrir coisas novas, de criar outros espaços e ideias.”

Luciane Paim, psicóloga, psicanalista e pesquisadora