The Summer Hunter, o lado solar da vida

A comunidade leitora da rede vizinha está moldando o mercado literário

Do algoritmo às prateleiras: como o #BookTok virou força editorial.

Manuela Stelzer

Pra se concentrar em um livro, a orientação costuma ser a mesma: silencie as notificações e afaste o celular. Mas o que antes parecia uma disputa — livros versus telas —, hoje, pra muita gente, virou quase uma parceria.

Inspirados por uma edição da newsletter No News, Bad News, da pesquisadora de comportamento Thais Farage, analisamos como o universo digital e os influenciadores literários têm ditado o tom do mercado editorial no Brasil.

A força de uma hashtag

O #BookTok acumula cerca de 215 bilhões de visualizações, enquanto o #BookTokBrasil já ultrapassou 3 milhões de publicações e conta com 21 bilhões de visualizações.

Além do universo online

A comunidade tem o poder de pautar editoras, redefinir capas e títulos, alçar um livro à categoria de best-seller e até influenciar a curadoria de eventos tão relevantes quanto a Bienal do Livro do Rio — que, no ano passado, convidou influenciadores literários e autores que viralizaram nas redes.

Segundo Thais, é legal (e complexo) porque:
. Tira a literatura do pedestal e dissolve a falsa oposição que coloca o livro como coisa de “gente inteligente” e as redes como território de superficialidade.
. Transforma a leitura em experiência coletiva — algo fundamental pra uma geração que socializa pelo feed.
. Amplia os holofotes e abre espaço pra autores que nem sempre pertencem à bolha literária tradicional.

“Quem cria o hábito de leitura nas crianças são as mães ou professores. Considerando que mulheres correspondem a 96% das educadoras infantis e 79% da docência na educação básica no Brasil, são mulheres, mesmo, que mandam no mercado editorial.”

Thais Farage, pesquisadora em comportamento, moda e gênero e mestranda na EACH-USP, em sua newsletter No News, Bad News, no Substack

Livros hits (e, por vezes, polêmicos) que vieram do Booktok:

É assim que acaba, de Colleen Hoover, que se tornou centro de um bafafá holliwoodiano. 

Daisy Jones and the six, de Taylor Jenkins Reid, que virou série homônima na Amazon Prime.

The Underground Railroad: Os caminhos para a liberdade, de Colson Whitehead, enredo que inspirou a minissérie homônima.

Rivalidade ardente, de Rachel Reid, viralizou nas últimas semanas nas redes e no streaming.

A empregada, de Freida McFadden, virou roteiro de cinema.

Filhos de sangue e osso, de Tomi Adeyemi, que promete virar filme em 2027.

De férias com você, de Emily Henry, foi parar no catálogo da Netflix.

Sete dias em junho, de Tia Williams, foi um dos livros discutidos no clube de leitura da Reese Witherspoon.

Nem só young adults

Grande parte do sucesso vem de histórias sobre identidade e sexualidade na transição da adolescência pra vida adulta.

Mas o fenômeno não se limita ao gênero. Em 2024, por um desafio proposto pela hashtag, a influenciadora norte-americana Courtney Henning Novak leu Machado de Assis, se apaixonou e viralizou dizendo que o autor deveria figurar entre gigantes como Shakespeare. O resultado? Um cânone brasileiríssimo virou trend internacional e as vendas dispararam.

Primeiro passo
A influência dessa comunidade talvez não seja suficiente pra reverter, sozinha, o declínio do hábito de leitura no Brasil — o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Ainda sim, pode funcionar como porta de entrada, transformando engajamento em hábito.