The Summer Hunter, o lado solar da vida

A arte de flertar

Os códigos podem até mudar, mas o mix de sentimentos que surge na hora de demonstrar interesse por alguém segue o mesmo.

Dandara Fonseca

Nos últimos anos, o jogo de demonstrar interesse ficou cada vez mais digital, acompanhado de novos — e às vezes confusos — sinais: um pedido pra seguir, uma curtida nos stories, um meme depois de um longo silêncio.

Mas o flerte nunca foi exatamente uma linguagem direta. Muito antes das redes sociais, ele já era feito de pistas e mensagens deixadas pela metade.

Amor nas entrelinhas
Antes da internet, flertar era uma atividade bem mais difícil, demorada… e pública. No fim do século 19, no Rio de Janeiro, os anúncios do Jornal do Commercio serviam de mural de recados. Identificadas por iniciais que só o destinatário decifrava, as mensagens declaravam interesse, marcavam encontros, pediam desculpas, confessavam saudade ou tentavam descobrir se o sentimento era correspondido.

15 de julho de 1879

P.B para S.

“Fiz-lhe alguns sinais e pareceu-me serem correspondidos. Pôs-me em dúvida a distância que nos separava. Estava vestida de preto, sobressaindo-lhe os ombros uma certa alvura, que lhe dava todo o brilho. Indique-me um meio de conduzir as cartas à sua presença. Aceite uma eterna saudade do aspirante ao seu amor. Sinto muitas saudades de ontem para hoje.”

“Era pelas páginas de um jornal ao qual toda a população letrada tinha acesso que você comunicava ao outro os seus sentimentos mais íntimos e tentava marcar um encontro em algum lugar da cidade, em algum horário.”

Alessandra El Far, professora titular de antropologia da Universidade Federal de São Paulo, no episódio “Bilhetes de amor”, do podcast Rádio Novelo Apresenta

Alguns pares criavam códigos próprios pra trocar mensagens sem chamar tanta atenção — e pra ter certeza de que a resposta (que às vezes demorava semanas) vinha da pessoa certa. O que nem sempre funcionava.
Os teus sinais
Outra forma de flertar era por meio do Diccionario das flores, folhas e fructas, livro francês que fez tanto sucesso por aqui que ganhou uma versão brasileira. A obra atribuía significados amorosos a flores e gestos: deixar um lenço cair, mostrar o relógio, colocar o leque diante da boca, ajeitar a gravata… Tudo podia ser um recado — ou não.

Dicionário das flores dos tempos modernos
Visualizou todos os stories em segundos: tá observando.
Curtiu: tem interesse.
Like em várias fotos seguidas: muito interesse.
DM: a versão digital de mandar um bilhete no jornal.

Hoje, basta um clique pra falar em particular com quem despertou nosso interesse. E, ainda assim, nem sempre damos o primeiro passo.

Porque 150 anos atrás ou atualmente, flertar segue exigindo o mesmo: atenção pra interpretar os sinais e coragem pra correr algum risco.

Curtiu?

Ouça essa história no episódio “Bilhetes de amor”, do podcast Rádio Novelo Apresenta.